Narrativas do Lado Contrário



Por Luísa Fresta



Entre o ensaio filosófico e a crónica literária surgem quinze narrativas curtas neste que é o primeiro livro de ficção de Rui Freitas. Para além da sua faceta de editor e coordenador de textos, conheço o Rui da escrita jornalística, incidindo particularmente na análise de filmes e obras literárias, artigos sobre bandas musicais ou exposições de pintura. Por isso não me surpreende o rigor do seu estilo em histórias ficcionadas, nem o cuidado extremo em não deixar pontas soltas. Nesta recolha de contos há aspetos que gostaria de destacar, relativos ao conjunto da obra e outros mais específicos de algumas narrativas que considero significativos.

Porquê Narrativas do Lado Contrário? A primeira ideia que ocorre é a de que as histórias são contadas de uma perspetiva diferente da habitual, como se tentássemos subir escadas de costas ou andar de cabeça para baixo, tocar sem pauta, enfim, ousar sair da zona de conforto para arriscar outras interpretações da realidade. David, por exemplo, é uma belíssima metáfora sobre o mito da invencibilidade e explica como podemos experimentar sensações diferentes, como leitores, se nos libertarmos da compreensão generalizada das histórias clássicas (com referências ao Antigo Testamento, neste caso). Este é um conto claro, sintético e sarcástico do qual emerge uma moral límpida e inspiradora mas nunca moralista. Contado em jeito de fábula, faz lembrar também, em espírito, eficácia e contundência, o autor brasileiro Millôr Fernandes e os seus contos humorísticos (Fábulas Fabulosas), onde encontramos abundantes personificações que trazem até nós situações do quotidiano, sobre o sentido dos nossos medos e da vida tout court.

Cães e gatos proliferam, aliás, em Narrativas do Lado Contrário, uns circunspetos ou sobranceiros, fleumáticos ou enigmáticos, como Bóris, outros mais desajeitados, temíveis e imprevisíveis, mas sempre surpreendendo pelas atitudes espontâneas, assertivas e acertadas que dispensam o discurso formal e os códigos sociais dos humanos.

Há também nestes textos uma escrita preponderantemente masculina, impregnada de testosterona, com cenários que iluminam os ambientes dos bas-fonds lisboetas, as mesas de jogo clandestinas e os entroncados matulões. Em O 6ª mandamento (e mais uma vez encontramos referência a textos bíblicos) deparamo-nos com esta passagem:

“(…) O Varela mandou-o sair. Ele levantou-se, deu um pontapé numa cadeira, mais por se ter desequilibrado do que por insurreição, e com a oscilação caiu de frente para o Varela. O Marco, uma espécie de guarda-costas do Varela, avançou, afastou o patrão e preparava-se para lhe ir à tromba quando o Vassili, que até ali se mantivera quieto e calado, mandou o matulão parar, e dirigindo-se ao Varela disse que deixasse, que pagaria ele a dívida do Neves. O Varela preparava-se para responder sabe-se lá o quê, mas calou-se perante um gesto do russo.

Naquele momento, o Neves, numa chispa de lucidez, conseguiu perceber que se tinha visto livre de levar um valente aconchego e então, mais ou menos aliviado, porque a vergonha já tinha desistido dele, deslizou dali para fora (…)”.

Como nada é deixado ao acaso, entendemos que a intenção do autor é induzir o leitor a uma leitura detetivesca, desde o título, levá-lo a descobrir, numa segunda abordagem, a razão de ser deste ou daquele detalhe. Segunda leitura que é, se não imprescindível, pelo menos recomendável, para se abarcar a fluidez e a coerência dos enredos na sua plenitude.

Por outro lado, a escolha dos nomes dos personagens parece-nos peculiar; referidos frequentemente pelos apelidos e precedidos pela forma de tratamento formal (senhor/dona), há a assinalar em alguns outros casos a escolha de alcunhas com nomes brejeiros, permitindo de imediato a perceção (que supomos intencional) de um distanciamento do próprio narrador, omnipresente ou participante, em relação aos habitantes do universo dos seus contos. As histórias são autónomas mas não deixa de existir uma ligação notória entre elas, pela atmosfera marcadamente citadina, de forma explícita ou implícita, e pelos nomes dos personagens, alguns dos quais reaparecem de forma não inocente em várias narrativas.

Alguns locais são, do mesmo modo, referidos em mais do que um conto e, ainda que recriados pela pena do autor, percebemos que fazem parte do ambiente de fundo que se pretende construir, como uma cidade imaginada e redobrada sobre si mesma, onde o real se confunde com a ficção. Ainda a este propósito, a presença de um Datsun 1200, mencionado uma única vez, empresta um realismo essencial à cena de Um calhau no meio da estrada; é porventura um dos automóveis mais conhecidos em Portugal, lançado pelos anos setenta, e alguns exemplares ainda hoje circulam, bem restaurados e mantidos. Como no conto La Autopista del Sur de Todos Los Fuegos El Fuego (Julio Cortázar), a simples descrição de um modelo de automóvel pode ser importante para fixar a narrativa no tempo e sugerir uma contextualização imediata. [Cortázar refere um Dauphine, um Peugeot 404, um Caravelle, um Taunus, um Simca, um Fiat 1500 ou um ID Citroën – sem eles, a sua história não existiria ou ficaria a rodar tristemente numa autoestrada despojada e fantasmática].

Outrossim, há um detalhe que sobressai destas histórias: a obsessão com o tempo e os relógios, como em O Relógio de Parede ou em Multiverse. Todas as cenas cabem dentro de um período específico: os minutos, as horas e o decorrer do tempo não são aleatórios e têm aqui um papel fulcral para se perceber que os cenários, por mais desordenados que possam parecer, estão presos a uma marcha imparável e sem retrocesso.

Destacamos igualmente as numerosas alusões ao cinema, à música e à literatura, mas sobretudo à pintura (não fosse o autor também um artista plástico) numa escrita intertextual que, ajudando a visualizar uma tela de fundo, confere consistência aos cenários.

Particularizando um pouco mais, atentemos ainda em O Relógio de Parede, construído como um enigma, em estilo depurado, evidenciando a predileção por relógios. Já no 6º Mandamento o narrador descreve com fina ironia e humor, porventura a roçar o camiliano, ambientes prosaicos com cheiro a álcool e gordura de bifanas, que empesta personagens e leitores. Apesar da caracterização atenta há uma recusa explícita da violência crua nas palavras: mesmo quando se abordam casos agudos de alcoolismo ou comportamentos extremos, sugere-se muito mais do que se expõe; é muito clara a denúncia da hipocrisia social a que todos estamos votados, mas o elemento surpresa surge no final para encerrar um enredo sólido e envolvente.

Os personagens monocórdicos e monocromáticos, absorvidos pelo turbilhão da rotina, ruminam memórias e fazem parte, do mesmo modo, desta manta de retalhos humana. Alguns falam para dentro ou têm vozes interiores que os mantêm alerta para o mundo exterior, são esquizoides e estranhíssimos, miram de lado e andam de viés em espaços onde não estão perfeitamente integrados. São tipos que olham de esguelha, estes que o Rui nos oferece, por não conseguirem fazê-lo de frente. O narrador é um fino observador que descreve com minúcia os tipos físicos e psicológicos mais comuns, levando o retrato ao nível da caricatura, entre o risível e o aterrador. Não raras vezes julgamos assistir a uma peça de teatro cheia de monólogos e cenários sombrios e subterrâneos. Em Feios, porcos e conformados o leitor é convidado a entrar numa atmosfera de família disfuncional e caótica contada como uma comédia dramática por um narrador participante, remetendo vagamente para o estilo do guião da conhecida série britânica «Shameless», onde todos os intervenientes, problemáticos e assustadores, escancaram segredos e debilidades.

Entretanto há também espaço nestas narrativas breves para retratar a pureza de sentimentos de pessoas como nós, Duas pessoas vulgares, destinadas a viver circunstâncias de uma invulgar fragilidade e intensidade numa história de amor e sedução contada com delicadeza.

Por fim, consideramos a obra eclética, mas consistente como um todo; o trivial pode conviver fugazmente com o inesperado e as dores da existência, mas também com a beleza e o espanto, e retemos a ideia de que nem tudo é o que parece à primeira vista e de que vale a pena dedicarmos algum tempo para olhar à nossa volta e percebermos o nosso lugar no mundo.


* Imagem: Acervo pessoal

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