“Noite Andarilha/ Sou Mercúrio, Já Fui Água” [Regina Correia]



Por Luísa Fresta



Noite Andarilha é uma das faces do livro duplo de poesia de Regina Correia, reeditado pela Alphabetum, em 2012, com prefácio de José Jorge Letria e apresentação de Isabel Pascoal.

O livro abre com Efémero, em versos curtos, telegráficos e as palavras desenham um cenário de sobriedade e rigor na página nua. Em todos os quarenta e um textos deste poemário predomina uma clara intensidade suavizada pelo encadeamento das ideias, segundo um estilo muito peculiar, cuidado, um caminhar ritmado de elegância e sensatez, pautado por uma linguagem recatada que contrasta com os sentimentos vibrantes e soltos. Em Refúgio, o universo íntimo preserva, intacto, o instante, enquanto segredos constroem abrigos estratégicos. Sonho cruza-se com utopia ainda que, claramente, se suponha uma certa aceitação do destino como resultado do auto conhecimento das limitações, um conformismo inteligente, ponderado, nunca alienado, impotente ou derrotado.

Se Lua Nova nos transmite, por um lado, a esperança de dias melhores, por outro, a irreverência, a rebeldia e a ousadia estão sempre latentes, próximas da transgressão, da frustração e dos interditos, dissimuladas atrás de uma nuvem em forma de verso, conformando uma vontade indómita de libertação expressa pelo fazer poético.

Já em Resistência, outros valores se levantam, altaneiros; a beleza da palavra e da canção ecoam acima da violência e do castigo, do temor às armas. (Ainda a coragem e a fé, a inevitabilidade da vida perante a convicção da morte).

Encontramos versos impregnados de sensualidade, implícita, transbordante, em Sortilégio, onde ritmos africanos do Sul se misturam com o balanço do mar e o crepitar das chamas, mas também em Miragem, a lúbrica quietude do silêncio, ou ainda em A outra margem, na qual, impotentes, assistimos ao erguer da barreira intransponível, que isola, e sentimos a distância invisível que se interpõe entre o sujeito lírico e uma meta inalcançável. Entrega [“(…) Círculo/ fecundo/ o sabor das/ palavras em/ chama/ delírio/ louvor/ timidamente no/ sortilégio de/ um beijo (…)”] oferece-nos uma sensualidade velada, musical, rente ao abismo mas é em Itinerário do desejo que a autora percorre a noite e o mar, atravessando incêndios desertos com passos de desejo incontido como a iminência muda das tempestades de areia. A suprema intimidade do toque mas também a paixão e o abandono levam o leitor ao limite, à exaltação do antagonismo, dos extremos, como em Volúpia.

Nestas páginas há também lugares mais obscuros e enevoados: Nocturno, uma viagem sem regresso onde o fatalismo e a solidão imperam, a noite sempre presente como em Saudade ou Recolhimento; Regina leva-nos pela nostalgia de circunstâncias à deriva, mostra-nos delicadamente como é a clausura interior e voluntária, a intimidade suprema. A saudade está também irremediavelmente presa à geometria das viagens, aos marcos geodésicos, saudade é mar, silêncio e Expiação (a capa, com o quadro “Mar d’sodade”, do pintor cabo-verdiano Kiki Lima, resume bem esse espírito). Porém, a necessidade de aportar a um local seguro é notória, fugindo a mares evolutos e tormentas; é uma busca sem fim à vista. Ancoragem, Vulcão (a noite, o romper barreiras, ignorando todas as fronteiras, a urgência, enfim) são testemunho desse estado de exaltação, uma fuga consentida e imparável na tentativa de resolver o impasse poético. A agonia doce da jornada, a vertigem do amor ou uma “pátria incerta, filha dos ventos e dos mares”: nela há um “crioulo arredio” (O Fogo e as águas) explicitamente mencionado, um desejo de suor e chuva. Já Em Luanda Regina sobrevoa estoicamente a dor da renúncia, do exílio e da distância, lançando embora uma palavra magoada e amorosa ao oceano. Secretas margens serão desertos e mares, o inatingível, ali tão perto. Ela dá voz, continuamente, a essa representação de dois mundos, num movimento pendular: a errância contínua, o medo e finalmente a ousadia, que surge como as asas improváveis do silêncio e da ansiedade.

Noite Andarilha, à boca da madrugada, entre rios e aragens vulcânicas, terá sempre o cheiro de um felino na selva, o momento imprevisível do abandono, ou a cor indefinita do exílio.

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Como uma réplica deste terramoto de emoções surge Sou Mercúrio, Já Fui Água, a cento e oitenta graus, na contracapa, mesmo que na verdade não pareça existir preponderância de um livro sobre o outro, mas apenas uma cúmplice partilha de espaço volumétrico e de intenções.

Com prefácio de Rui Aleixo precedido de epígrafe a cargo de Isabel Pascoal, o livro de quarenta poemas (que abrange o período compreendido entre 1994 e 2008) exalta sobretudo a natureza, a selva e a força dos elementos, o mar, o sol, o vento. O rio e as margens são ainda referentes estéticos, mas também os labirintos que aprisionam a alma; os abismos e a névoa compõem a paisagem fantasmática que resvala para o insólito e o onírico. O abandono, a espera e a ausência parecem desérticos mantos intermináveis em contraponto ao galope, feroz, aos impulsos de vária ordem, que simbolizam a espontaneidade e a força arrebatadora das paixões. O gelo/neve versus o sol opõem-se ocasionalmente para nos fornecer um original mosaico fragmentado de vitrais, intemporal, translúcido [“(…)Somos/ mosaico intemporal/ miragem/ esquiva promissão no/ caudal da/ desgraça/ inconfessada(…)”], com novas tonalidades em cada página, para lá da trigonometria de Perpendiculares ao Pasmo. Parece estar aí encontrada a nossa pequenez diante da eternidade.

Também as preocupações sociais têm aqui lugar de destaque: celebra-se o valor da liberdade em colisão com o encarceramento e a aspereza do arame farpado, como em Tardo Voo da Pluma. De assinalar a rebeldia como um sentir social, expressão de sentimentos coletivos. Há igualmente coordenadas geográficas explícitas que nos permitem situar os poemas: Hamburgo Sobre o branco invernal, árvores despidas, mas também a evocação de Abril, temporal e histórico, a primavera, nos remetem para o nosso próprio Tempo, por intermédio da geografia das palavras. Abril que rima por vezes com a fragilidade do sonho consubstanciada pela vontade de mudança, e a utopia, explicada em Devaneio. Queluz (Um único raio solar) e Lisboa são outras paragens obrigatórias para fecharmos o círculo da narrativa aqui e ali pincelada de melancolia, ainda preenchida com as cores dos silêncios, de desencantos vários, numa poesia, única companhia, que roça o abismo da lonjura, quase desterro, e traduz a saudade. E como as palavras podem dar voz às incertezas, também o imponderável e a imprevisibilidade das viagens (Por onde me leva esta viagem, único soneto do livro) encontram espaço nos poemas: remorso e frustração, luto e tristeza, profecias e promessas.

O Regresso aos caminhos do mar marca, enfim, o retorno a Lisboa, à claridade e aos aromas. Como alguém que já conheceu Pasárgada e dela teve que abdicar, há um tempo e um lugar diferentes onde se foi feliz, de comunhão com a natureza, os rios e a terra. Lá onde, diz a autora, Sou Mercúrio, Já Fui Água.



* Imagens: Marlene Nobre e Jorge Ribeiro


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