O amor que mora em mim

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Por Cida Mello


Ela estava sentada próximo ao portão de desembarque à espera do seu namorado. Estava feliz, com um semblante tranqüilo e exalando a leveza de quem ama. Em instantes, uma senhora se aproximou e perguntou:

- Esta à espera de alguém especial?

- Sim, meu namorado. Respondeu ela, com um sorriso contagiante no rosto.

- E ele por acaso mora longe? Que triste a sua sina. Já passei por isso!

- Não, ele mora muito perto. Tão perto, que para ir até ele não preciso nem de palavra, de carro ou de trem!

- Entendi. Vocês são daqueles casais “moderninhos”, que se conhecem em um dia e no outro já estão morando juntos. No meu tempo não era assim, precisava conhecer bem antes... namorar, noivar e casar! Mas hoje é tudo tão diferente!

- Não, a senhora não entendeu. É bem perto mesmo, tão perto que não dá pra ir nem com um passo!

- Como assim? Vocês são daqueles casais grudentos? Aqueles que vivem colados um no outro o tempo todo? Já passei por isso também. Mas olha, se quer um conselho...é melhor dar liberdade para que ele tenha seu próprio espaço e você também tenha o seu. Casais que passam o tempo todo juntos acabam enjoando um do outro, porque assim não dá nem tempo de sentir saudade. E saudade é um ótimo tempero para a relação. Escuta o que eu to te dizendo! Acaba esse grude aí.

- Não, é até mais perto que isso! A senhora ainda não entendeu...

- Ai meu Deus! A mocinha é daquelas que vive sonhando com contos de fadas! Amores platônicos, que são vividos apenas no pensamento, dentro da cabeça! Agora sim entendi! Minha filha, só te digo uma coisa, se continuar assim, vai ficar para titia. Sabe como é, mulher depois de uma certa idade fica difícil de arrumar marido. E se quer ter filhos, é bom por o pé do chão!

- Agradeço o conselho da senhora, mas não é aí que ele mora não. Como estou tentando explicar...é um lugar bem pertinho mesmo, tão perto que não consigo nem mesmo te passar o endereço assim de cabeça.

- Desisto, acho que não estou entendendo nada mesmo! Essa juventude de hoje...cheia de enigmas! Boa sorte minha filha, feliz sorte no amor!

A senhora curiosa se foi. Ela continuou com o mesmo semblante tranqüilo e leve de sempre. Faltava pouco mais de 20 minutos para o vôo dele chegar. Ela sabia que naquele vôo viria apenas uma parte dele, o corpo físico. Ele não era apenas o seu namorado, era o seu amor. Um amor que suavemente foi misturando-se a seu ser. Desde então, muito mais do que perto, ele passou a morar nela mesma. Agora, ela podia vê-lo e senti-lo todos os dias e todas as manhãs. Quando respirava, sentia a presença dele na brisa leve que embalava a sua respiração. Quando se olhava no espelho, percebia o sorriso dele irradiando o seu olhar. Até a sua temperatura mudou, pois agora também a sua pele emanava um calorzinho bom, produzido pela lembrança do seu abraço. É hora de levantar, seu coração bateu um pouco mais forte agora, feito um sino pendurado na porta, que anuncia a chegada de alguém no portão. Enquanto caminhava pensava na última fala da senhora. Sim, o amor é mesmo um enigma, felizes são aqueles que conseguem desvendá-lo!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Hexagon-ceramic-candle-holder-shadow-lamp-6-689403215

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