Ser cansa

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Por Leilane Paixão


Tem vezes que isso de viver cansa. Dá um peso nas costas, uma tensão no pescoço, um dolorido nos tornozelos. Parece que o mundo pesa e estar nele é uma provação sem fim. Embarcamos com remos, mas sem uma direção e destino muito bem definidos. Vamos ora remando, ora nos deixando levar ao bel prazer dos ventos. Inevitável não nos perguntarmos para onde, afinal, estamos indo e para que ir se faz preciso. Para que, hein?

A escritora mais profunda que conheço, Clarice Lispector, certa feita disse: "A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa. Há dias que vivo da raiva de viver". Sinto-me profundamente acolhida nas palavras de Clarice. Não que viver seja ruim ou um castigo. Viver tem a sua beleza, a sua poesia própria. Mas viver pesa. Não saber o que a vida quer da gente, afinal, pesa. Por vezes, não saber para onde ir, pesa. O passar dos dias cansa. Atender às expectativas sociais e, inclusive, às próprias, também cansa. A gente vai caminhando pesado, trôpego, quase parando. Como diz Guimarães Rosa:

"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."

Tem hora que tudo se reveste de sentido, como que por mágica, e os passos se tornam mais ligeiros, leves, começamos a correr sem nem perceber... Digo, dar saltos! Saltamos, saltitamos, rodopiamos, dançamos. A sensação é de que o mundo se abriu para nós. A tensão dá lugar a suspiros, os doloridos cedem espaço à emoção de se estar vivo. Sentimo-nos na crista da onda: no alto, de onde podemos ver melhor a imensidão e saborear o prazer de termos alcançado algo que não sabemos ainda nomear, mas que enche o nosso peito de sentido e significado.

Eis que vem o fatídico da vida: a onda se desfaz, volta a ser mar calmo. Por vezes, monótono até. E a gente volta a ver o que todo mundo vê... A rotina massacrante de ser gente. Acordar, escovar os dentes, tomar banho, vestir-se, tomar o café da manhã, exercitar-se na academia, voltar, tomar outro banho, arrumar-se para trabalhar, almoçar, escovar os dentes, sair para trabalhar e passar o dia todo servindo à sociedade ou a outrem, voltar para casa, tomar mais um banho, se alimentar, escovar mais uma vez os dentes, estudar, assistir televisão e tentar dormir para acordar no outro dia e começar tudo mais uma vez. Neste meio tempo, há ainda a convivência com pessoas nem sempre agradáveis, as nossas cobranças internas por sermos pessoas melhores, mais bonitas, mais ricas e mais úteis; além das exigências alheias para que nos comportemos de forma bem ajustada a isso que chamamos de mundo e vida social.

Se a gente não se reveste novamente de poesia, a gente se afunda em tanta facticidade. Bendito seja aquele que é capaz de ver a poesia das coisas, tal qual Alice quando transcende ao país das maravilhas. Acredito mesmo que o surrealismo nos salve dos dias crus e fatídicos da existência. Sempre. Penso que alguns transtornos mentais, muitos deles, talvez se devam ao excesso de realidade. Quando a gente se deixa ficar muito tempo no vazio desses dias estéreis, sem conseguir transcender à concretude dos dias, vai tudo mesmo se incrustando. Ao final, estamos tão rígidos, tensos, doloridos que a mente não acompanha mais. Ser cansa.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Hermit-escape-2-200927515

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