Demagogia



Por Leilane Paixão


Há vinte e quatro horas refletia acerca daquela palavra: de-ma-go-gi-a. Que significado poderia ter a quem empregou, no momento em que foi empregada?

Havia terminado o discurso improvisado... Ela que não era política e nem nada. Não era membro, não era ninguém. Era alguém, simplesmente ela, sem cargo de importância ou alta estirpe. Mas, sobre o tema em questão se debruçou e expôs o seu pensamento. Foi logo acusada de "demagogia" e naquele momento se sentiu num tribunal. Ou seria num palanque político? Também ouviu alegações de que ela, e outros ali presentes, seriam "formadores de opinião". Isso soou perigosamente pejorativo... "Oh, cuidado, com essa formadora de opinião! Demagoga! Mobilizadora de paixões/ilusões!". Não foram essas as palavras, mas pareciam dizer assim.

Ela escutava diversas vezes, desde então, a palavra "demagogia" soar repetidamente e teimosa em sua mente, tal qual havia sido exaustivamente repetida por quem a proferiu. E ela se questionava sobre o sentido da palavra inflamada. Demagogia, para ela, seria o pronunciamento de palavras vazias, que se dissolvem no vento. Demagogo, para ela, seria aquele que seduz com palavras bonitas que, na prática, não são passíveis de operacionalização. Assim, demagogia, para ela, seria tão pura e simplesmente: mentir.

Revisitou as suas intenções e não conseguiu descobrir a motiv-ação para mentir, iludir. Seduzir, sim. Achava que quando se milita por uma causa justa, tornamo-nos apaixonados e apaixonantes sedutores. E quando pensava nisso, lamentava profundamente pelo cuspidor de palavras sem sentido no contexto. Lamentava, de verdade, que ele tivesse perdido a esperança e deixado de acreditar. Sentia muito ao compreender que ele, assim como ela, era um sofredor, mas enxergava suas vivências pelo ângulo limitado que a sua profissão lhe permitia. Logo ele que era alguém, representava um alto cargo, revelava ali no seu discurso inflamado que não abre caminhos, a própria falência de si e da instituição que representava - quiçá de todo o sistema...

Mas, - ela sabia -, ele estava certo. Ela, no seu lugar, diria e sentiria o mesmo dela ali. Foi bobinha, ingênua e cheia de sonhos. Mas, ah, o que seria das instituições públicas se não fosse a carne nova a lhes ventilar os poros! E o que seria de nós se parássemos de crer nas possibilidades (inúmeras)? Repressão. Reprimir. O objetivo do orador/cuspidor de "não-demagogias" estaria concluso.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/puras-mentiras-74500596

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