Maria

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Por Luísa Fresta


NOVA IORQUE NA AMADORA ou UMA NOITE DE INVERNO TROPICAL


A noite anunciava-se cheia de lua, uma superlua brilhante e grávida de promessas. Deslizando suave pelas artérias tranquilas da Amadora naquele resto de domingo, uma mulher carregava nos ombros redondos a adrenalina de uma semana vivida entre pressões intermitentes de um antigo caso. Ao deixar a estação ferroviária, do lado direito de quem vem de Lisboa, deparou-se com uma rua profusamente iluminada e decorada com enormes arcos doirados e laçarotes vermelhos, enfeites natalícios que enchiam o ar de um colorido exuberante e apregoavam um ambiente de festa. Lúcia tinha na altura 45 anos acabados de cumprir, um cabelo sedoso e espesso e um sorriso fácil. Não era raro entabular conversa com estranhos, uma palavra ou um monossílabo espontâneo eram muitas vezes o mote para um pequeno diálogo fora de propósito e em terreno ambíguo. Lúcia esperava, naquela noite, uma amiga recente, artista plástica talentosa e de fino trato, a quem queria apresentar um lugar com muito boa música, sem pretensões, que vivia de uma clientela eclética e original, oscilando entre o grotesco, o curioso, o fascinante e o duvidoso. Nanda, a sua amiga, chegou pontualmente com um olhar pestanudo, intrigado e divertido. Envergava uma roupa prática que lhe assentava como veludo, contrastando com a sua aura misteriosa de dama da corte; ela era, de facto, uma senhora, alta e de porte altivo, de andar seguro e elegante como quem pisa um chão que conhece.

Lúcia, de aparência mais banal e popular, sentia-se inquieta quanto ao que as esperava a ambas. Enquanto aguardava a amiga e ensaiava uns passos soltos pela calçada agarrada ao telemóvel, tinha sido confundida com uma prostituta, embora nada no seu trajar ou atitude fizessem supor que se encontrava a desempenhar tais funções. Quiçá o seu batom demasiado aberto e vivo, os seus olhos azeitona realçados por um traço escuro e firme. Fora isso, era a austeridade em forma de mulher, uma mulher redonda e recatada. Porém, um potencial cliente, vibrando de euforia e muitos quilómetros de corrida, tinha-a abordado com esse propósito. Era um atleta guineense, de uma candura arrasadora, e que lhe falou tão livremente como se fosse expectável o seu sim ou o seu não, sem dramas ou conjeturas prévias.

- Olha, posso perguntar uma coisa? – e ela esticando o passo apressado….- Sim?

- Moras aqui na Amadora, não é?

- Não, na verdade sou forasteira…- brincou Lúcia, tentando despachá-lo sem rispidez.

O atleta assustou-se e quis abreviar a conversa pedindo, titubeando, o número de telefone.

Ela respondeu, tranquila:

- Talvez seja um bocadinho cedo, não? Um dia a gente encontra-se, quem sabe… E olhe, cuidado para não baixar o ritmo cardíaco, não pare de correr!

O atleta sorridente de crânio rapado voltou aos saltinhos sem sair do lugar olhando para Lúcia e vendo-a afastar-se pela rua estreita em direção às luzes.

Assim, quando Nanda e Lúcia entraram no café da esquina, já o seu ar sorridente contrastava com a noite fria, após terem trocado algumas impressões sobre esse lugar onde a música parecia nascer de fora para dentro, pintando paredes e solo e tetos com acordes de morna e coladeira. Fora do minúsculo estabelecimento alguns raros homens fumavam e outros entabulavam distraída conversa uns com os outros. Era “dia de bola”, como os próprios diziam, e preparavam-se já para acompanhar o importante jogo que seria também transmitido no enorme ecrã ao fundo do estabelecimento. Era um ecrã pendurado bem no alto, que funcionava sem som e permitia aos adeptos seguirem os desafios visualmente enquanto se deixavam impregnar pelo som da música ao vivo. Por ali passavam regularmente intérpretes de qualidade e estilo diverso e atuavam músicos de primeiríssima água, viola-baixo, cavaquinho e violão. Músicos residentes ou de passagem, convidados especiais ou presenças regulares, todos de um profissionalismo inexcedível, guitarristas de alma e profissão, ostentando um rigor técnico digno das mais exigentes salas.

As duas mulheres conseguiram um recanto agradável junto à parede envidraçada, perto do palco improvisado no canto esquerdo da sala diminuta, a escassos metros das casas de banho claustrofóbicas mas de uma higiene irrepreensível. Mais perto só mesmo a fila da frente, destinada normalmente aos pseudo VIP de serviço, homens de fato e gravata que entre cochichos e murmúrios se dizia serem pais ou tios de alguém que era realmente uma estrela, sobretudo no mundo do desporto profissional.

A simpática Tula veio prontamente saber dos pedidos, movimentando-se eficazmente entre as mesas de acordo com a sua sobriedade costumeira: Nanda e Lúcia decidiram-se por uma canja, especialidade da casa, com açafrão, raspas de cenoura e muitos ovos de galinha. Enquanto isso já os músicos criavam ambiente com temas instrumentais e Nanda ia-se entusiasmando a cada nota, a cada arrastar dos dedos sábios pelas cordas das violas. Outros fregueses começavam a encher a sala e a aquecer o espaço, as minis e os torresmos cortados desenhados nos pires colorindo as mesas e alegrando os clientes retardatários que se acotovelavam junto ao balcão, trocando palavras breves de alegria e álcool.

Lúcia e Nanda viram passar por aquele palco sete intérpretes de exceção: a bonita cantora residente, com um timbre escuro, maduro e grave, interpretou temas conhecidos e popularizados por Cesária Évora. De uma forma contida, suave, como um vulcão na iminência de irromper mas preso ainda ao umbigo da montanha. Ali se cantou também a “morna vadia”, uma designação que as amigas acharam apropriada para o estilo daqueles homens maduros, de vozes rústicas e imperfeitas, ásperas e algo alcoolizadas, mas com uma interpretação vibrante de cor e dinamismo. Uma jovem cantora vinda de Paris trazia no ventre um bebé e um marido discreto de olhos de céu a tiracolo. Foi uma revelação total que levou a plateia ao rubro: Lyn cantou clássicos de Eugénio Tavares conferindo a Forsa di Kretxeu uma roupagem nova, modernizada, cheia de vibratos e revelando uma familiaridade insuspeitada da morna com o blues e o jazz. Nanda não se conteve e opinou:

- Esta mulher deve viver em Paris ou Nova Iorque, não sei… tem escola, tem mundo e um à vontade fora do vulgar. Além de uma voz brutal. Pode pisar os palcos que quiser. Isto aqui é Nova Iorque, Lúcia! Nova Iorque! – dizia Nanda com um brilho malandro nos olhos candentes.

Lúcia concordou. Mas embora reconhecesse a técnica da jovem cantora e se tivesse deixado empolgar pela sua pujança e potência vocal, esperava, com paciência e teimosia, ouvir a sua intérprete favorita, uma mulher muito doce e quase apagada que se chamava Maria e ali estava com o seu exuberante companheiro, de boné e fato olímpico. Partilhou essa impressão com Nanda, que sentia também já esse formigueiro da espera, da espera por Maria. Entretanto as duas companheiras transformadas em cúmplices saracoteavam-se violentamente nas resistentes cadeiras da tasca que semanas antes tinha sido apelidada, num instante de arrebatamento criativo, de “Coliseu da Amadora”! Estavam imparáveis, dançando sentadas enquanto outros o faziam de pé, um deles sozinho, embriagado e descrevendo perigosas espirais com o corpo como se abraçasse uma dama imaginária. Fazia-o com esmero e um gozo indescritível, de olhos fechados, como se o mundo não existisse fora desse abraço improvisado num rodopio sem fim, enquanto os seus bigodes amarelecidos pelo tabaco e pela falta de cuidado se iam eriçando até quase parecerem uma saia de palha. Alguns clientes começavam a enervar-se com aquela “bailarina de pacotilha” que parecia sorver a música só para si, naquele momento de egoísmo solitário e êxtase profundo. Eram os adeptos de futebol, um dos quais comentou:

- O gajo ainda por cima pensa que tem graça. – E depois, dirigindo-se ao artista:

- Ó amigo, aqui não! Olha ali o livre!

O artista sossegou, desculpou-se e desviou-se educadamente uns 50 centímetros, retomando o seu ritual de entrega a Apolo e a Dionísio. Nanda e Lúcia deliraram com todos esses mini espetáculos marginais e inesperados que nasciam a cada instante antes os seus olhos espantados, como garotas de colégio. Estavam ali pela música, mas consumiram teatro de revista a custo zero!

À frente de Lúcia estava sentada uma senhora algo alheada, idosa e com as unhas impecavelmente pintadas de verde vivo. Sorvia uma taça de vinho tinto e beliscava um pires de torresmos, no qual mergulhava de tempos a tempos um olhar absorto preso ao infinito. Também nessa fila se sentaram algumas damas exuberantes e sensíveis, que cantavam apaixonadamente e se deixaram comover pelo romantismo de alguns temas. A cerveja acabou por correr solta pelas roupas junto com as lágrimas e os olhos delas brilhavam exageradamente num misto de tristeza e euforia. As hormonas brincalhonas do climatério acabaram por armadilhar outras tantas damas que se abanavam freneticamente com leques coloridos. Nanda e Lúcia tudo observavam com interesse genuíno: a primeira com o olhar esponjoso da artista plástica que transforma em cor todos os quadros humanos, Lúcia com o ouvido atento de quem se alimenta de cada palavra gesticulada ao seu redor. Perto dali um virtuoso da guitarra cumprimentou-as efusivamente e juntou-se à trupe. Era um cavalheiro, que quis partilhar com as duas damas uma taça de branco, oferta que as amigas já não estavam em condições de aceitar, de tão embriagadas que estavam então pela sensualidade crua do ambiente.

Quando eram exatamente 23h30, Maria foi finalmente chamada ao palco. Vestida com simplicidade, a mulher agarrou o microfone como quem agarra num talher de uso diário, e começou a cantar.

Lúcia recordou as palavras do seu antigo caso: “As mulheres simples também podem ser bonitas”. Maria era bonita assim, sem querer, sem fazer esforço. Cantava como se fosse natural, como se respirasse, como se o tivesse feito desde o útero materno. Enquanto estava sentada cantou todos os temas baixinho, sorrindo sempre, olhando para Lúcia, para Nanda, distribuindo doçura em todas as direções. Quando por fim se apoderou do microfone, Maria calou a assistência com duas melodias suaves como ondas do mar batendo na rocha. Olhando para o companheiro com desmedido encanto, encantando a todos mas cantando só para ele. Nanda queimou por dentro e deu por bem empregues aquelas quase cinco horas de deslumbramento. Ao chegar a casa, percebeu o caminho percorrido. Tinha tido uma noite inesperada em Nova Iorque.


Imagem: "Liberdade", de Armanda Alves.

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