O Brasil e o Golpe de 2016

*

Por Yvana Paraguassu Rangel


O golpe de estado de agosto de 2016 abre um novo período para a luta política no Brasil. Nada será como antes, amanhã ou depois de amanhã. O que tivemos nessa decisão do Senado foi a confirmação do que vinha sendo planejado pelos poderes de fato há bastante tempo. Não se trata apenas de interromper um mandato. Trata-se de mudar o regime político, cassando a soberania popular e substituindo-a pela “opinião dos homens de bem”, isto é, pelos homens de bens. Acabou aquilo que se conquistou há mais de 30 anos, acabou a escolha dos governantes pelo voto direto. Não mais “Diretas-Já”, nem mesmo aquelas que tivemos até aqui, corrompidas pelo dinheiro das empresas. Eleição só vale se tiver o resultado desejado pelos homens de bens.

Aconteceu no Brasil um golpe nos mesmos moldes que ocorreu na Ucrânia, onde o antigo Presidente Viktor Yanukovich foi deposto com a desculpa de “crimes de corrupção”, sendo que na verdade era apenas mais um interesse dos magnatas ocidentais em tentativa de desestabilizar mais um país no Leste Europeu visando provocar a Rússia, que todo mundo sabe é uma pedra no sapato dos interesses da Casa Branca em sua tentativa de dominar a Europa com auxílio da Desunião Europeia.

No Brasil ocorreu um novo Maidan, seguindo o mesmo rascunho que foi na Ucrânia em 2014, a diferença que no país até então no passado, viveu a sua melhor época com a União Soviética, houve uma grande resistência dos povos no Leste do país, resistência que está sendo levado a cabo até os dias de hoje, as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk são um grande exemplo disso. A questão que na América Latina a influência nefasta da Casa Branca é maior, até por seus golpes no passado estarem se repetindo, foi assim no Paraguai há dois anos e em Honduras alguns anos antes, agora ocorreu no Brasil.

Muitos falam que o golpe tem apoio do “povo”, assim como disseram que o Maidan na Ucrânia também, clara mentira. Isso é desculpa para manipular as massas, Brasil e Ucrânia são países com populações grandes, por tanto a maioria principalmente aqui elegeu como Presidente, Dilma Rousseff. Os golpistas sempre repetem o discurso de “contra” corrupção, sendo que no atual “governo” os ministros de Temer estão sendo caçados justamente por crimes de corrupção, tem até um ex-advogado da quadrilha PCC, que é umas mais fortes no Estado de São Paulo, mesmo Estado de São Paulo governado por um partido que viveu atacando Dilma, porém está desviando dinheiro da merenda das escolas e ninguém, os mesmos inclusive que protestaram contra a “corrupção”, não falam nada.

Em 1992, quando o presidente Fernando Collor foi alvo do primeiro processo de impeachment da história do Brasil, havia um clima generalizado de euforia, traduzido pela esperança de que o país havia dado um basta à corrupção. Vinte e quatro anos depois, o ritual que agora afasta a presidente Dilma Rousseff pode ter o mesmo nome, mas o cenário é outro: entre embates nas ruas e escândalos que mantêm sob suspeita boa parte do Congresso, carrega mais tintas de desencanto do que expectativas de redenção nacional. Mas que Brasil emerge deste segundo processo de impeachment? E o que esses dois afastamentos tão próximos dizem sobre a democracia brasileira? Alguns analistas têm visões diferentes sobre o significado histórico do atual momento para o sistema democrático, mas a maioria mostra pouco otimismo sobre seus desdobramentos. Uma das constatações é que o país não aprendeu as lições de 1992

Nas redes sociais, no campo derrotado, há um espanto com a consumação do golpe. Há certa revolta com o PT, por não ter sido capaz de defender-se com vigor, denunciando sua própria capturação por um sistema de financiamento ilícito da política e das eleições pelo velho conluio entre as empresas e o Estado. O PT não inventou o velho conluio mas acreditou que seria aceito no jogo, e agora paga o preço sofrendo o golpe e correndo o risco de sua própria extinção. Há certa revolta com as ilusões, alimentadas ao longo dos últimos meses, sobre a possibilidade de derrotar as forças poderosas que se uniram para desfechá-lo. Esta perplexidade que se nota nas redes parece acompanhada, entretanto, pela disposição de resistir a Temer pedindo eleições diretas para presidente. Se isso se confirmar, vamos ter um Brasil conflagrado pelos próximos dois anos e meio.

A grande pizza - A estratégia de Romero Jucá, apresentada na conversa com Sergio Machado, vai tomando forma: tirar Dilma para “estancar a sangria”, para que todos se salvem. Maria Cristina Fernandes publica, no Valor, as primeiras informações sobre um projeto que anistiará todos os beneficiários dos esquemas de corrupção, no bojo de um projeto de reforma política a ser votada depois do golpe. Algo assim: daqui para a frente, doações eleitorais ilegais passam a ser crime de corrupção, e não mais apenas crime eleitoral. Todas as doações nebulosas apuradas pela Lava Jato (caixa dois ou propina?) ficam caracterizadas como crime eleitoral e não serão punidas. Exceto as do PT. Daqui para a frente, tudo será diferente, com a aprovação (e prévia desidratação) das medidas anti-corrupção propostas pelo Ministério Público.

Efetivado, e unificando a coalizão, Temer continuará contando com o beneplácito das grandes mídias e retomará a ofensiva para controlar a EBC, reduzindo a empresa de comunicação pública a mero aparelho governamental. As mídias alternativas na Internet, que já tiveram os patrocínios cortados, resistirão a duras penas mas o espaço para o contraditório será cada vez mais exíguo. De preferência, desaparecerá.

A luta do povo apenas começou, um golpe desses não pode acontecer e nem a classe trabalhadora ficar de braços cruzados, claro, a Dilma foi eleita pelo povo, mas também foi fraca em relação ao que poderia acontecer com ela, porque no sistema atual a justiça praticamente não existe... Ela só existe aos interesses dos poderosos, principalmente no Brasil. Porém, agora não adianta lamentar, Dilma caiu e é dever do povo lutar, principalmente pelo resto de democracia que ainda existe no Ocidente.

É um golpe antipopular e vende-pátria. Em curto prazo, portanto, temos a necessidade de instabilizar o governo golpista e promover a reconquista das “Diretas-Já”.


* Imagem: http://www.marchaverde.com.br/2016/03/brasil-moro-e-setores-da-midia-tramam.html

Comentários

Adriele disse…
Parabéns pelo texto, Yvana! Mostrou exatamente o que as pessoas precisam saber.
Yvana disse…
Grata amiga.