Onírico

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Por Leilane Paixão


Certa vez, quando vivenciava a pressão de final de mestrado, tive um sonho destes muito vívidos e marcantes. Fiquei com ele por alguns dias na cabeça, até que numa noite insone, como num estalo, minha mente começou a maquinar e desvelar alguns sentidos deste sonho para mim. Imediatamente, levantei, peguei meu caderno de anotar insights e epifanias, e me pus a escrever a interpretação que minha mente me soprava naquele momento.

Vou tentar fazer um breve resumo do sonho ao leitor desprevenido. Hoje, alguns meses ou anos depois, não me lembro dele com riqueza de detalhes, mas me ficou o essencial. Lembro-me que eu estava num cenário muito conhecido de minhas infâncias e juventudes, na cidade de Esplanada-BA, terra da minha avó. Estava dentro de um carro com alguém que não lembro quem ao meu lado, em meio a uma forte chuva, daquelas que arrastam em suas enchentes até a alma das pessoas. Tenho muitas recordações daquela rua... A rua de minha tia Mira, seu marido João e meus primos queridos Camilla e Alex. A casa de minha tia é de esquina e, logo em frente, do outro lado da rua, há uma grande ladeira que é preciso descer se quisermos visitar os seus moradores. 

No meu sonho, essa ladeira aparecia como uma espécie de precipício. Sabe aqueles filmes em que os personagens estão no meio do rio revolto e de repente se deparam com o topo de uma cachoeira ou cascata, prestes a caírem em queda livre? Pois então! E foi isso que aconteceu comigo no sonho, mas eu não estava num barco, e sim dirigindo um carro, sendo arrastado pela chuva no meio da rua, e não num rio. E que cairia do alto de uma ladeira... ou seria uma pseudo-cachoeira/desaguadora de águas passadas? Sei que naquela situação, ao me deparar com o precipício e com a queda inevitável, não vislumbrei outra opção a não ser soltar o freio de mão e me deixar cair... Incrivelmente não morri, mas me deparei com um mundo estranho... e precisaria encontrar o caminho de volta ao meu velho mundo.

Naquela noite insone, quase como uma médium que recebe uma mensagem, me pus a escrever sobre o sonho. Compartilho agora.

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A chuva que arrasta o carro é o fluxo intenso da vida, que não para e exige que soltemos o freio de mão de nossas supostas seguranças e "mecanismos de defesa". A vida nos arremessa em quedas livres ou ao menos sentimos assim, porque é nossa condição no mundo sermos, desde sempre, lançados, des-amparados no mundo. O carro se estraçalha nas pedras, obrigando-me a sair do meu lugar (zona) de conforto e, literalmente, entrar na água para me molhar. Lembro-me que ainda antes da queda, puxei o freio de mão na intenção de dar ré e não me lançar no desconhecido, no inseguro daquela ladeira íngreme. Mas a vida arrastou o carro e logo vi que não adiantaria frear. Eu tinha de me lançar no inseguro, justamente naquilo que eu tinha medo. Quando chegamos nas pedras, meu carro se arrebentou, mas eu não. O desconhecido e que nos mete medo, nem sempre nos mata. Lá embaixo tinham outras pessoas na água buscando um caminho de volta, ou outros caminhos. Lembro que lamentei o estado do meu carro e me disseram: "não se preocupe, não, o seguro te dará outro".

Realmente, na vida sempre buscaremos meios de fugir das tempestades, de não nos molharmos, de nos transportarmos mais rápido, recuarmos dando ré, ou seguirmos em frente. Nossa necessidade de segurança sempre recria lacres, couraças, tetos, carros...

Agora era preciso atravessar o rio que tinha lá embaixo, cuidando para não cair em buracos ou ser machucada por animais. Existia um caminho que diziam ser o caminho de volta após essa travessia. Mas sei que ainda que eu voltasse para o mesmo lugar, eu já não seria a mesma. Ao menos, o meu carro (a minha couraça de proteção e imunidade ao chamamento da vida) eu já não teria mais durante a travessia. Então, cuidaria de ser, ainda que fosse por um breve momento.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Lethe-585661073

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