Disciplina é liberdade (ou Cartas ao meu analista)

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Por Leilane Paixão


Quando a cama confortável se tornou cama de pregos, eu te procurei. Senti que já não podia permanecer estática, na indisciplina de uma vida sem vida. Descobri que há horas em que o medo não protege da perda de si. Talvez eu já devesse saber... Estudei tanto para descobrir que o sentido da vida é apenas viver e que somos seres destinados a morrer! Contudo, "saber"/"ter consciência de" não serve de nada. Sabemos que devemos continuar nossas vidas, apesar de... Apesar de tantas coisas! Mas há encruzilhadas que nos acontecem (ou em que nos acontecemos) que nos aprisionam e nos travam o caminhar. Em uma destas, eu me perdi.

Não foi bem uma encruzilhada. Seria mais apropriado falar em uma serra, ou uma altitude da qual eu caí. Um acidente (um acidente?) no qual eu não morri. Mas morri. Engraçado que depois dali passei a me questionar se minha vida era mesmo vida ou apenas uma ilusão de uma alma cognoscente a vagar, por ainda não ter se dado conta de ter sido tocada pela morte. Sei que aquele "eu" que eu era até então, de fato morreu ali.

Eu costumava gostar de me aventurar. Era uma desbravadora, que mesmo com medo, ia. Ah, o ir...! Para ir é preciso coragem, mas se a gente não vai, faz-se finda a vida, posto que viver exige (EXIGE) movimento. Viver é um eterno lançar-se no aberto do existir. Segurança alguma há. Somos tocados pela morte antes mesmo do nosso primeiro respirar, quando ainda somos células em conjunção no ventre materno.

Viver é nadar contra a corrente, quebrar a dureza do asfalto a fim de florescer. Procuro flores no asfalto, procuro furar o asfalto, o tédio, o nojo e a náusea. Mas há vezes em que sou o próprio asfalto: rígido e impassível. Não consigo me mexer, não saio do lugar. Aliás, ocupo o lugar de onde vejo todos passarem: por cima de mim, ao lado, embaixo, acima. E eu, estática.

Nesse dia em que me aconteci num acidente, eu sei que morri. Algo em mim se perdeu. Mas várias outras vezes eu já havia me perdido de mim, para depois me reencontrar de uma outra maneira. Um novo eu. Tive vários pequenos abandonos durante a vida. De mim para mim mesma. Volta e meia me distancio de mim... Costumo comparar este movimento ao que o filósofo Martin Heidegger diz sobre a propriedade e impropriedade, dois movimentos absolutamente legítimos do existir humano. Na impropriedade, somos como todo mundo é, fazemos o que todo mundo faz, estamos imersos na cotidianidade mundana. Já na propriedade, damo-nos conta da nossa condição humana, de seres lançados no mundo sem certezas, seguranças, abertos a inúmeras possibilidades de vir a ser.

O que é que eu vou fazer com essa minha liberdade? Pergunto-me quase todos os dias.

Um ônibus caiu. Rolou 30 metros, matou 09 pessoas. Alguns, depois, escolheram ir, outros ficaram ali. Estes 09 não puderam decidir/escolher. É muito interessante essa questão do poder de escolha. Há lugares em que, simplesmente, não temos que estar. É preciso saber a hora de sair das coisas.

"O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído..."

Vaguei e continuo vagando distraída pela vida, perdida na impropriedade. O medo reforça o meu comportamento de fugir da morte quando justamente preciso andar de mãos dadas com ela. Não se trata, é claro, de invocá-la, como tantas vezes, estupidamente, já invoquei, em tempos infantis de mim. Mas de aceitá-la em sua condição de companheira de jornada.

O acaso vem para nos fazer abrir os olhos. Há vida a ser vivida! Há tanta vida a ser vivida, que, às vezes, dói, porque pulsa, com força, e eu não abro as comportas para lhe dar vazão, para lhe permitir ir! Aliás, para me permitir ir.

Viver exige a disciplina de olhar para si e se flagrar "on the road", no caminho. Mas, independente da estrada escolhida (que são inúmeras e válidas), como você mesmo diz: é preciso ir. A natureza do viver é de tal ordem que não permite ensaios. Não há tempo para ficar parado... não há tempo que fique parado.


"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz como que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo 'esboço' não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro. (...) Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca." - Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser


* Imagem: Google

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