A mentira

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Por Luísa Fresta


“Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês”.
Luís Fernando Veríssimo, 
excerto do texto As Mentiras que os homens contam

A mentira enquanto instrumento de bem-estar e de paz social merece um olhar mais atento, no sentido de tentar perceber até que ponto ela é impactante nas nossas vidas, até onde pode ser tolerada e até incentivada, quando usada com alguma mestria e moderação.

Enquanto que na infância ouvimos dizer de forma sistemática que “mentir é feio” e que “se deve dizer sempre a verdade”, e, do mesmo modo, os fundamentos da doutrina cristã condenam abertamente a mentira considerando-a um pecado (mortal ou venial, consoante o tipo e o grau de mentira e também as circunstâncias que a rodeiam), todos nós, bem antes da idade adulta, nos apercebemos de que a mentira é usada diariamente nas mais diversas esferas (social, familiar, afetiva, profissional) e seria difícil voire impossível prescindirmos dela sob pena de quebrarmos uma cadeia de regras que nos permitem conviver harmoniosamente uns com os outros evitando conflitos de maiores proporções. Questão de sobrevivência? Exercício de cinismo? Ou um assunto marginal que assume o papel de mal necessário no quotidiano?

Quem tem filhos lembra-se certamente de alguns episódios caricatos, como o da criança que atende o telefone inadvertidamente (quem não os tem terá certamente protagonizado a cena na primeira e “pequena” pessoa), e respondendo ao pedido de quem chama: "A mãe está? Olha, vai chamá-la, está bem?", dispara, com a inocência esperada: "A mãe está a fazer chichi" ou "A mamã disse para dizer que não está". Esta criança será inevitavelmente repreendida veementemente pela mãe, pois acaba de provocar uma situação de profundo desconforto entre dois adultos, habituados a lidar com a mentira social de uma forma natural. Um adulto diria apenas algo como: "A mãe agora não pode atender mas liga depois" ou "A mãe saiu". Explicar a um filho pequeno que não se deve mentir exceto em determinadas circunstâncias sem lhe apresentar uma lista infindável de situações em que elas são aplicadas espontaneamente é uma árdua tarefa para qualquer educador.

Poderíamos citar inúmeros exemplos da mentira social, branca ou inocente, como também já ouvi chamá-la. Mentiras que incluem omissões, pequenas manhas e que se expressam por palavras mas também por atitudes: «Levei mais de meia hora à procura de lugar para estacionar o carro» (na verdade acordei meia hora atrasada para uma reunião); "Inglês? Claro que falo" (a bem dizer consigo exprimir o básico e entender o suficiente numa conversa de três minutos com um turista); "Olha, assim que a chuva parar eu ligo-te para um café" (a resposta verdadeira seria: não tenho grande vontade de estar contigo mas um dia destes farei o sacrifício para te manter na minha órbita).

Na esfera profissional também a mentira é usada como estratégia de sobrevivência ou de supremacia. Um exemplo vulgar é o do empreiteiro que apresenta uma proposta abaixo dos preços do mercado para ganhar um concurso e driblar a concorrência (depois de assinado o contrato, o preço será compensado através de adendas ao contrato e será assim reposto o equilíbrio financeiro de forma a garantir o necessário lucro). Neste, como noutros casos, a mentira é dolosa, há uma intenção clara e consciente de enganar, partindo do pressuposto de que, se todos o fazem, quem não se vale desses métodos é penalizado e não tem hipótese alguma de sobressair. Mais exemplos? Nas estratégias de marketing, incluindo o marketing político, há frequentemente uma intenção clara de atirar poeira para os olhos, por vezes recorrendo a afirmações parcialmente verdadeiras ou falácias, pequenas ilusões de ótica, malandrices ou manipulação de consciências. Quem nunca comprou produtos light (que os nutricionistas e médicos endocrinologistas jamais recomendam numa dieta hipocalórica), quem nunca comprou dentífricos “recomendados por 9 dentistas sobre 10” (que nenhum médico dentista recomenda)?

A estratégia deste tipo de mentiras, próprias da sociedade de consumo e com a finalidade óbvia de levarem o consumidor a escolher um produto, ideologia, candidato ou serviço em detrimento de outro (não pelas suas qualidades intrínsecas e comprováveis mas por efeitos anunciados que jamais poderão ser aferidos por serem irreais ou irrealistas) é tolerada e incentivada no nosso quotidiano pela generalidade das pessoas. Alguns de nós reclamamos maquinalmente repetindo frases feitas semelhantes a esta: “Os políticos são uns mentirosos”. Serão? Para além do perigo evidente de injustiça num julgamento em que se toma o todo pela parte, pergunto se alguém votaria num candidato cuja campanha primasse pela transparência e apresentasse um discurso eleitoral semelhante a este:

- não poderemos baixar os impostos a curto prazo porque a situação económica do país não permite (nem o contexto externo);

- os empregos a criar na próxima década serão escassos, precários e mal remunerados;

- uma grande parte das licenciaturas oferecidas pelas universidades estão desfasadas do mercado do trabalho;

- o terrorismo é um mal global e em crescimento e nenhum Estado o pode controlar a 100%;

- os cidadãos têm que fazer um esforço adicional, individual e coletivo, para proporcionarem o melhor serviço, quantitativo e qualitativo em todas as áreas (nomeadamente saúde e educação) e pensarem que aqueles a quem servem poderiam ser eles próprios;

Alguém votaria neste político? Eu não. Rapidamente seria apelidado de “anjinho”, doido, suicida, e varrido da corrida pelos lobbies, provavelmente acusado de não ter visão estratégica nem sentido de Estado.

Existe a mentira piedosa, que será porventura a mais consensual. Muitos cederão, por exemplo, à tentação de ocultar uma doença terminal ou um facto suscetível de causar dor psicológica a alguém que lhes é próximo. Esse papel fica muitas vezes reservado aos profissionais de saúde que têm um compromisso maior com a verdade e um código de conduta que lhes é próprio e deriva de juramentos profissionais, embora a expressão de tais “verdades”, dependa, ainda assim, do contexto cultural.

Há um facto curioso que se refere a uma palavra muito em voga: transparência.

Quando eu era criança (há relativamente pouco tempo…), esse termo era usado sobretudo para adjetivar materiais; hoje em dia transparência parece ser sinónimo de verdade, numa das suas aceções, e é profusamente usado em incontáveis textos jornalísticos; desde logo ocorre-me uma questão, quiçá superficial: alguém de entre nós usaria roupa (completamente) transparente? Mochilas ou bolsas transparentes? Se no primeiro caso a resposta seria certamente um não maioritário, no segundo talvez alguns arriscassem o sim. Dir-se-ia que estamos dispostos a desvendar alguma coisa, mas não o essencial. Mochilas e bolsas transportam acessórios, a roupa cobre o nosso corpo, cobre-nos a nós. Seria prematuro concluir que a verdade deve ser limitada ao bom senso e que nem sempre é útil? Que o envolvimento individual com a transparência dita verdade deve ser ponderado não apenas em função do seu valor ético e moral mas também do que se espera de positivo quando optamos por essa via? Questão para equacionarmos e debatermos sobre o sentido prático do uso da verdade e/ou do seu contrário.

Na esfera dos afetos as coisas podem complicar-se; a mentira é por vezes mal tolerada e sentida como desrespeito, vivida com indignação e revolta pelo sujeito passivo. Quando descoberta (e quase sempre o é). Neste contexto as expetativas são maiores, por vezes excessivas, e espera-se que a mentira seja usada de forma marginal, esporádica e sem intenção de ferir ou prejudicar. Muitas vezes a mentira, ou omissão, ou qualquer espécie de ardil, serve para proteger alguém que nos é próximo de um sofrimento de proporções incontroláveis. Aquele que é vítima do engodo opta também frequentemente por pactuar desse guião, preferindo passivamente acantonar-se numa apatia protetora, não questionando e não procurando obsessivamente uma verdade que não traria qualquer vantagem. A verdade parece não ter um valor próprio, mas apenas ser um padrão de comportamento que serve de referência e que determina que tudo o que lhe é oposto é mentira.

Entre a verdade e a mentira, representada por manifestações diversas, as opiniões divergem quando ao interesse de uma e outra nas suas distintas facetas e graus (a mentira, pois a verdade seria absoluta). Filósofos, investigadores vários e religiosos pronunciaram-se abundantemente ao longo da História sobre o assunto legando-nos uma coleção de teorias e correntes argumentativas que podem ajudar a respaldar a visão de cada um a cada instante. Mentir seria transgredir, supondo que aquele que mente o faz livre e conscientemente e com intenção de ludibriar. Mentir causa desordem mas também evita guerras e confrontos. Mentir pode ser uma afronta mas também pode ser um ato de compaixão. Mentir de modo consuetudinário como faz o mentiroso compulsivo, seria o exercício de um hábito como o daquele que não chega a libertar-se dos padrões de comportamento da mais tenra infância. Mentir tem uma dimensão material e espiritual, mentir causa desamor mas também protege a candura frágil associada ao amor romântico.

Mentimos, enfim, para nossa própria proteção ou para proteger outrem, mentimos por vaidade, por pressão social, por medo, por pudor, por insegurança. Mentimos também por crueldade, mas a crueldade pode resultar igualmente da frontalidade e da sinceridade sem filtros. Entre a hipocrisia e a diplomacia, entre o peso sufocante da verdade e a janela aberta da mentira se desenham caminhos difíceis que oscilam entre a permissividade, a tolerância e a intransigência mais radical.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Texture-737-616785727

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