O ir

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Por Leilane Paixão


Não por acaso as águas mexem tanto comigo. Não por eu ter nascido no dia 2 de fevereiro, o dia da rainha do mar. Ou, talvez sim. Mas as águas, em seu movimento, expressam o fluir, a inconstância e a impermanência das coisas. A água corrente é capaz de nos levar/lavar todas as coisas da alma, as boas e as ruins. Não por acaso, ou talvez sim, uma fração significante do corpo humano é composta por água. Acaso ou não, que bom que seja assim. Que bom que nos transborde as possibilidades de mudança e transformação.

As águas também me remetem à leveza. Nelas imersos, flutuamos. Ao tentar contê-las com as mãos, logo nos escorrem pelos dedos. Fugidias, leves, descomplicadas. Suaves. Sábias também! Já observou a sutileza das águas de um rio atravessando as pedras? Ferozes também! E as águas de enchente raivosas? Incisivas, firmes. Às vezes, avassaladoras tsunamis... Ainda assim, acho que a tendência das águas é se acalmar, sua verdadeira natureza é de tranquilidade.

Pensar nas águas é também pensar em mim, (re)significar-me. Sou fugidia, me escapo com frequência. Quando penso que sou água parada, represada, e que já me conheci e dominei, eis que se abrem as comportas e me esvaio ruidosa. Não vim ao mundo com jeito para água parada. Nem para água morna. Só sei ser quente ou fria. A mornidão me incomoda, inquieta. Por isso talvez eu seja adepta de mar aberto, de ondas que quebram e nos arrastam. Não gosto do paradeiro de mares-piscina.

Mas, por vezes, encontro-me em estado de mornidão, de falta de fervor e de entusiasmo. Nem quente, nem frio. Desesperança me cria estados de paralisação e estagnação. Falta de perspectivas de mudanças e transformações extrínsecas a mim e alheias ao meu controle, me desmotivam. Furtam de mim o apetite de ser água que corre. A mornidão ao meu redor também me amorna.

Em tempos de mosquito da dengue é perigoso ser água parada! Longe de mim ser habitat de larva. Quero a flora e a fauna inteiras em mim! Na realidade, o que eu quero ainda não tem nome. Por enquanto, o movimento, a audácia e liberdade das águas...


* Imagem: Google

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