As pessoas estão vazias

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Por Leilane Paixão


As pessoas estão vazias. Vazias de lentes de ver o mundo, vazias de raciocínio, vazias de respeito por si mesmas e pelo outro, vazias de ética, vazias de criticidade, vazias de criatividade, de perspectiva, de esperança. Vazias de seriedade. É o tempo do esvaecimento, da falta de sentido, da falta de tudo.

Pergunto-me se a dificuldade de percepção da realidade é um problema cognitivo, de educação, de interpretação da história/historicidade dos fenômenos humanos, de egoísmo, de ausência de raciocínio? Afinal, qual é a dificuldade que tantas pessoas parecem ter de analisar as situações por pontos de vista diversos, ler nas entrelinhas, fundamentar suas posturas e discursos?

Heidegger (2000), filósofo alemão, fez o alerta: "a nossa época é ameaçada pela perda do enraizamento" (p. 17). Também sinalizou para a perda de uma das principais, senão a maior, característica humana: a capacidade de pensar e refletir. Distinguiu dois tipos de pensamentos, aquele que medita sobre o sentido das coisas e o que calcula. Nas suas palavras:

“O pensamento que calcula (das rechnende) faz cálculos. Faz cálculos com possibilidades continuamente novas, sempre com maiores perspectivas e simultaneamente mais econômicas. O pensamento que calcula corre de oportunidade em oportunidade. O pensamento que calcula nunca para, nunca chega a meditar. O pensamento que calcula não é um pensamento que medita (ein besinnliches Denken), não é um pensamento que reflecte (nachdenkt) sobre o sentido que reina em tudo o que existe. Existem, portanto, dois tipos de pensamento, sendo ambos à sua maneira, respectivamente, legítimos e necessários: o pensamento que calcula e a reflexão (Nachdenken) que medita.” (HEIDEGGER, 2000, p. 13)

Embora devam coexistir, pensamento que calcula e o que medita, estamos assistindo a uma era de extermínio do pensamento meditante. Está se dando um processo de esvaziamento de sentido, de fundamento, de bases. As pessoas sustentam suas vidas, suas práticas e argumentos em terreno de terra fofa, oca, superficial. Tudo ao redor nos furta a possibilidade de pensar, nos automatiza e nos leva a aceitar estar no mundo sem grande esforço mental, como robôs programados a só dizer sim, especialmente, ao que vem fácil.

Abandonam-se os livros, as revistas, os jornais, os artigos científicos (coisas, antes, poderosas de fazer pensar!). Deixa-se de lado, também, a sabedoria e a simplicidade de pensar sobre o existir. Torna-se mais difícil, assim, olhar para si e compreender as próprias questões psicológicas e existenciais. Quando se trata, então, de assumir uma formação acadêmica ou atuar com excelência na própria profissão, assistimos a um verdadeiro festival de horrores. Alunos tantos que não estudam, mal assistem aula, que buscam um mero diploma para ganhar um dinheiro e atuar sem base nenhuma em suas profissões. Profissionais que não refletem sobre a própria prática, que desconhecem o que fundamenta o seu saber-fazer e a história de suas áreas de atuação. E na esfera política? Salvo exceções, pessoas desprovidas de ideologia e de senso de coletividade, de nação. Verdadeiros idiotas (na acepção da palavra), exibicionistas, sedentos por poder e pelo vil metal.

Todo este caminhar rumo à mediocridade e ao abismo, assusta-me. Especialmente, por entender que não estou isenta desse processo. Já fui raptada, há muito tempo, pelas forças que nos conduzem à "idiotização". Mas continuo resistindo. Reconheço perdas de mim e, ao me projetar, sinto raiva dos outros. Pois vejo minhas perdas intelectuais nas perdas das outras pessoas, vejo minha superficialidade no mundo raso alheio. Penso que, ao escrever tudo isto, estou tentando me salvar, me resgatar, preencher... Penso.



Referência:

HEIDEGGER, M. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.

Imagem: Google 

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