Da miserabilidade do panelaço como ação política

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Por Ana Lúcia Sorrentino


Ao abrir mão do discurso, agente revelador da nossa humanidade, e tentar calar à força o opositor, os panelaços perdem o teor de ação política.


Dias atrás, depois de um desses panelaços que têm acontecido quando há pronunciamentos do PT, li um comentário de alguém que dizia reconhecer o direito de protestar, mas sentia haver algo de miserável nessa prática. Impressionou-me a precisão do adjetivo. Os panelaços expõem exatamente uma miséria política imensa. Longe de mim negar o direito ao protesto, mas há protestos e protestos.

As pessoas querem ser ouvidas e é o que se espera em uma democracia. Entretanto, "ser ouvido" pressupõe "ouvir". E o panelaço tem a característica de não querer ouvir o opositor e - pior - não permitir que outros o ouçam, o que é próprio de ditaduras.

Todas as vezes que há panelaço lembro-me de Hanna Arendt. No capítulo "Ação" de A Condição Humana, a autora defende a tese de que é na ação acompanhada do discurso que mostramos quem somos e a que viemos. Arendt diz que é o discurso que revela nossa humanidade, pois animais irracionais e robôs podem agir, mas o que nos torna humanos é exatamente elaborar nossos pensamentos com palavras e explicitá-los.

Essa afirmação de Arendt me reportou, quando a li pela primeira vez, a um caso de agressão que acontecera em uma escola, amplamente divulgado. Inconformada com a beleza de uma outra aluna e, provavelmente, sem condições para elaborar isso intelectualmente, uma estudante espancou a colega de classe. Nem podemos julgá-la e condená-la por isso, pois não sabemos o quanto essa garota foi privada do mínimo necessário para conseguir realizar essa elaboração. Arendt me fez compreender que quando não há condições internas para elaborarmos as situações que vivemos, podemos cair na barbárie.

Agora o panelaço me reporta ao texto da pensadora. Uma parte da população o adotou como "ação política". Expressa sua revolta difusa através de barulho e sem discurso. Sabemos que quer manifestar insatisfação. Mas o fato de essa insatisfação ser canalizada apenas para um ou dois personagens do nosso lamentável cenário político é coerente com esse modus operandi: é simplista. Assim como a garota bateu na colega por não conseguir elaborar seus sentimentos, os batedores de panelas provavelmente não conseguem elaborar o contexto extremamente problemático que vivemos nesse momento. Fazem uma leitura muito superficial do que ouvem na grande mídia, que não tem qualquer intenção de aprofundamento das questões noticiadas, e cuja linguagem simplifica tudo. O ouvinte, metralhado diariamente com um discurso catastrófico e superficial, sente uma imensa insatisfação e cai na radicalização. Em lugar de organizar manifestações democráticas, de ocupar ruas com cartazes e de manifestar humanamente o que lhe desagrada, o que deseja, que caminhos gostaria de seguir, bate panelas. E panelas não dialogam.

Assim como não podemos julgar a garota que bateu na colega de classe por ser bela, talvez também não possamos julgar quem se coloca à janela a bater panelas... porque não sabemos exatamente do que lhes privaram para chegarem a isso. Provavelmente foram privados de uma boa educação, familiar e escolar, e muito provavelmente estão sendo privados de informação heterogênea e de boa qualidade. Há quem diga que simplesmente estão revoltados com a ascensão de uma parte da população que habitualmente lhes servia sem grandes reivindicações. Mas, se assim for, voltamos ao ponto: faltou-lhes educação e informação de boa qualidade.

É preocupante o fato de essa miséria política andar se manifestando por aí com tanta frequência, não só em panelaços, mas através de todos aqueles que se julgam no direito de agredir, xingar ou constranger os que pensam de forma diversa da sua. Enquanto não priorizarmos a educação e enquanto não democratizarmos a mídia, creio que estaremos cada vez mais sujeitos à barbárie.


* Imagem: Google.

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