Terno de Reis na Chapada Diamantina

*
Por Yvana Paraguassu Rangel


A tradição do Terno de Reis foi trazida para o Brasil pelos colonizadores luso-açorianos e é mantida em alguns estados brasileiros, principalmente no interior. O Terno de Reis é inspirado na história bíblica dos Três Reis Magos. Seguindo uma estrela que surge no céu no dia de seu nascimento, 25 de dezembro, Gaspar, Melchior e Baltazar saem à procura do Menino Jesus, levando presentes (ouro, mirra e incenso) e chegam a Belém no dia 6 de janeiro, Dia de Reis. Neste prisma, cristãos fervorosos divulgam o nome do Santo Filho de Deus, comemorando o seu nascimento e a chegada dos três reis magos no presépio de Belém.

Adaptado aos folguedos lusitanos, o Terno de Reis canta a história durante o mês de dezembro até o dia 6 de janeiro. Os grupos formados por cantores e instrumentistas percorrem as casas do início da noite ao amanhecer. A apresentação se divide em três partes. Com indumentárias vistosas, ornamentadas com areia brilhante, miçangas e diversos detalhes, os foliões de Reis encenam atos e entoam cantorias em louvação à divindade de Cristo, quando agraciado e adorado pelos Três Reis Magos, sob a guia da Estrela de Belém.

Vestem-se de calça ou saiote, com guarda-peito, uma espécie de colete enfeitado com vidrilhos, lantejoulas, espelhinhos e fitas coloridas. O Reisado pode ser apenas a cantoria como também possuir enredo ou série de pequenos atos encadeados ou não. No Reisado, também são introduzidos animais figurados, em seu repertório. Nele podem ser vistos Jaraguá, a Burrinha e o Boi, o qual finaliza a apresentação.

Na chegada, saúdam os donos da casa e pedem licença para entrar. No segundo ato, louvam o menino Jesus em frente ao presépio. A cantoria é interrompida quando o dono da casa, seguindo o exemplo dos Reis Magos, presenteia o grupo com bebidas e comidas. A apresentação se encerra com o agradecimento e despedida. Segundo a cultura popular quem recebe o Terno de Reis em sua casa é abençoado.

Vários grupos cultivam esta tradição e acompanhamos dois deles em visitas as casas. O Terno de Reis é uma celebração que envolve práticas culturais que remontam aos hábitos e costumes dos açorianos trazidos pela Coroa Portuguesa no século XVIII, para a ocupação e colonização dos estados brasileiros. Essas práticas estão relacionadas à memória e à construção e reconstrução de identidade de grupos e comunidades. O “Terno de Reis" é a cantoria folclórica mais antiga que existe.

Celebrado tanto nos festejos natalinos quanto no Dia de Reis, em 6 de janeiro, o Terno percorre as ruas durante a noite, visitando as casas ao som de viola, caixa e pandeiro, pregando tempos de fé e candura. Tradição seguida à risca nas cidades de Mucugê, Lençóis, Seabra, Palmeiras, Andaraí e no Povoado de Igatu. Tudo no Terno de Reis lembra o número ‘três’: ‘Três’ foram os reis magos; ‘três’ os presentes (ouro, incenso e mirra); ‘três’ são os cantadores de reis (solo, repentista e o tripa); e garante o poeta reizeiro, já na terceira geração de cantadores, mantendo viva a tradição dos reis. Com músicas dos reisados, os cantadores entoam pelas ruas e casas por onde passam. Eis o que se ouve no Reisado de João Ferreira, de Lençóis:


Ai, ai, ai
O terceiro trouxe mira (mirra)
Para seu trono mirar
Ai, ai, ai.

Já em Abaíra/Piatã, o reisado de Seu Agripino canta:

Ô de casa, nobre gente ;
Escutai o que vos direis
Na porta do oriente
É chegada dos três reis
É chegada dos três reis .
Na porta do Oriente
Guiado por uma estrela
De um Deus onipotente
Cavaleiros são aqueles
Que lá vão beirando o mar
Foram dar com ele em Roma
Revestido no altar
Eles são os três reis magos
Que Jesus veio adorar
Com seu livro na mão
Missa nova vai cantar
O primeiro trouxe ouro
Para seu trono ourar
O segundo trouxe incenso
Para seu trono incensar
O terceiro trouxe mirra
Para seu trouxe mirrar
Menino-Deus quando nasceu
Encheu seu mundo de luz
Viva Menino-Deus
Para sempre, amém Jesus!
O Reisado de Rio de Contas, por sua vez, canta:
Ô de casa, nobre gente
Escutai o que direi
Da parte do oriente
São chagados os três reis
São chegados os três reis
Da parte do Oriente
Viemos por uma estrela
Que era o Deus ali contente.

As cantorias de Mucugê:

“Deus vos salve casa santa;
Aonde Deus fez a morada
Aonde mora o cálice bento?
E a hóstia consagrada
Aonde mora o cálice bento?
E a hóstia consagrada”
Era meia-noite em ponto
Bateu asa e cantou o galo
Bateu asa e cantou o galo..."

"Que Jesus dê vida e saúde
Só voltamos para o ano
Só voltamos para o ano..."

Com a passagem do tempo, a maneira de realizar o Reisado, assim como a data, foi variando de região para região do Brasil. Há grupos de Reisado uniformizados e que se apresentam ao longo de todo o ano. Devido talvez à falta de comunicação e à ausência de intercâmbio social e cultural, foi conservado em sua forma antiga naquelas zonas mais longínquas do interior baiano. Um fator importante na apresentação do Reisado é o seu caráter social, pois tanto congrega elementos de classes diversas, fazendeiros (patrões) e moradores (subalternos), como também valoriza a atuação desses indivíduos de classe social mais baixa, que nestas ocasiões, têm oportunidade de mostrar as suas habilidades artísticas.

Apresenta várias formas de enredo e um dos mais autênticos é aquele do município de Lençóis, Mucugê e Palmeiras. Os praticantes do Reisado personificam a história dos Gladiadores Romanos, dos Três Reis Magos e a perseguição aos cristãos. O Reisado representa em ritmos e trajes, jornadas épicas das eras remotas dos gladiadores, havendo momento de verdadeira luta de espadas entre eles, as figuras dos Mateus e Catirinas dando humor a cada jornada, representam os bobos ou bufões do rei.

Eles cantam, dançam e pulam fazendo toda espécie de gracejo, pois tudo é aproveitado no Reisado para provocar o riso: as deformidades corporais, as atitudes grotescas, os apelidos, as caricaturas, os ditos populares, os gestos de agressividade etc. Durante o desenvolvimento do auto vão aparecendo em cena as figuras da Burrinha, do Jaraguá, da Ema, do Caipora e do Boi, dentre outras, que têm uma função idêntica àquela desempenhada no auto do Bumba-meu-boi. Esta aglutinação de elementos do Reisado com os do Bumba-Meu-Boi talvez se deva ao fato de trazer para o presente o mesmo quadro do Nascimento de Cristo, quando os pastores com seus rebanhos e os Reis Magos foram homenageá-lo.


Imagem: http://johnbjustiniano.tumblr.com/post/109763485216/terno-de-reis-em-igatu-chapada-diamantina-bahia

Comentários