Sons das ilhas (Perfil: Sant’ Ana)

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Por Luísa Fresta


Cabo Verde: um país pluricêntrico espalhado pelo oceano atlântico. 
A cabo-verdianidade da diáspora e a assimilação das suas culturas pelas outras lusofonias.

Há vozes que amadurecem com o tempo e que se tornam parte da nossa memória auditiva. Assim aconteceu com Sant’Ana, intérprete natural de Angola, país com o qual mantém laços perenes através das memórias herdadas do pai. Foi através de um inesperado convite que a ouvi pela primeira vez na Alliance Française de Lisboa, durante um evento dedicado a Cabo Verde há cerca de um ano atrás.

Sant’Ana não se pode recordar do meu aplauso, mas eu lembro com nitidez a sua voz e performance, à maneira das grandes divas do blues. (A morna tem essa saudade que mora também no fado e no blues, uma nostalgia constante do que está por vir, uma quase tristeza doce como a que faz falta para “fazer um samba com beleza”, no dizer do eterno Vinicius de Moraes).

Nessa altura o evento foi publicitado discretamente, anunciado com um auspicioso título: Petit Pays, on l’aime beaucoup, aludindo simultaneamente ao país que é Cabo Verde e à conhecida canção Petit Pays. Esta, como outras mornas, enfatiza a nota da saudade (sendo este um país de forte emigração), da doçura e do amor, a cabo-verdianidade do crioulo (fruto de incontáveis cruzamentos), tudo riquezas das ilhas, que o imaginário coletivo associa ao arquipélago, contrastando com a pobreza do subsolo e o clima agreste, onde a chuva é uma lágrima que teima em não cair. Em suma, um património não mensurável pelos processos pragmáticos e resultantes de uma ótica economicista imediata, mas que se apreende no convívio e nas vivências individuais.

Esse petit pays faz parte da minha história pessoal desde a infância; Cabo Verde e a sua música entram-nos pelos ouvidos e pela alma desde tempos imemoriais, um pouco como o samba e a bossa nova brasileira, como as várias literaturas da lusofonia. Cabo Verde, esse país que não é cabo nem é verde, e que, na verdade, foi assim chamado por facilidade de linguagem, uma vez que "o" Cabo Verde, esse sim, verde e luxuriante, se situa onde hoje fica Dacar, capital do Senegal; Cabo Verde é assim uma nação africana com especificidades de âmbito geográfico e cultural (que resultou de um demorado processo de fusão humana, iniciado aquando da expansão europeia do século XV e do consequente povoamento das ilhas, o que explicará muito sobre a maneira como o cabo-verdiano se integra no resto do mundo).

Nesse dia, nessa noite, em que assisti pela primeira vez ao belíssimo documentário "Morna Blues", uma original biografia de Cesária Évora, a língua portuguesa vestiu-se de cor e de sabor e misturámos alegremente francês, português e crioulo cabo-verdiano, entre pratos de cachupa e animada tertúlia.

Voltei a encontrar Sant’Ana recentemente cantando num restaurante temático de Lisboa, espaço de várias culturas, com o mesmo carisma de sempre. Dona de um estilo próprio, envolvente, ela confere autenticidade aos standards da música de Cabo Verde (a coladeira Cinturão tem mel, popularizada por Cesária Évora ou as doces mornas Bartolomeu e Forsa di Cretcheu, por exemplo); ouvi-a quase sempre acompanhada ao órgão por Humberto Ramos, pianista discreto e infalível nas suas notas. Ocorre-me pensar que Sant’Ana se situa algures entre Marylin Monroe e Nina Simone, entre uma Elis Regina e uma Edith Piaf: há nelas um je ne sais quoi que as torna únicas e no entanto comparáveis a outras divas da mesma fibra, que se caracterizaram por protagonizarem interpretações invulgares e que interpelam os ouvintes, mas também por uma vulnerabilidade intrínseca que as torna humanas e por isso próximas do comum dos mortais. Uma fragilidade vizinha da tragédia que paira no ar como um ornamento artístico.

Há dias estive à conversa com essa mulher camaleónica (ela é também professora de matemática e mantém ainda alguma atividade nessa área). Encontrámo-nos n’"A Brasileira" do Chiado, em Lisboa. A prosa fluiu solta, quase nem houve necessidade de tomar notas: fiquei a saber que o seu encontro com a morna foi inesperado, um amor fusional, vulcânico, como as ilhas, num restaurante com música ao vivo onde ouviu pela primeira vez o estilo musical com que viria a criar uma relação de pertença. Nas suas palavras a morna evoca sobretudo “tranquilidade e um doce romantismo”.

A artista foi assim desenvolvendo um forte vínculo com Cabo Verde, e a maneira calorosa e fraterna como foi acolhida pelos músicos da diáspora em Lisboa facilitou-lhe esse processo de integração. Falou-me no grupo Mistiçu com um brilho infantil nos olhos. Essa banda de músicos cabo-verdianos, com quem colabora com frequência, conheceu-a nesse mesmo local, a escassos metros da famosa estátua de Fernando Pessoa sentado à mesa do Café, junto à qual uma miríade de turistas se acotovela diariamente por uma fotografia. Lembro-me de lhe perguntar se a adotaram… e Sant’Ana diz-me que é essa a sensação: o grupo tornou-se parte da sua família artística, dando um sentido real à palavra morabeza. Este grupo eclético, que elegeu a rua como palco privilegiado (pela autonomia e pela reação e mobilidade do público) tem um vasto reportório que abrange vários estilos, pois, como refere um dos integrantes da banda, o nome “mistiçu” alude também a essa diversidade.

Sant’Ana está numa trajetória imparável e imprevisível. Ela desdobra-se entre festivais e projetos pessoais (gravação de um CD a curto/ médio prazo) e interage descontraidamente com o público, no intervalo das suas atuações, com um à-vontade e uma simpatia que lhe cola à pele.

(Um espectador atento veio há dias do Brasil de propósito para ouvi-la, em vésperas do dia da Liberdade, em Portugal!). Que esse respeitável senhor e ouvinte meticuloso espalhe a mensagem por terras de Vera Cruz, onde espero encontrar Sant’Ana um dia destes, uma noite qualquer sem luar, sentada displicentemente num banco alto e com um foco de luz incidindo sobre a sua longa cabeleira cor-de-ameixa, sóbrio mas potente. Como ela mesma.

Nota biográfica: Sant’ Ana

Paula Cristina Sant’Ana Lourenço, nascida a 27 de Junho de 1968 em São Paulo de Assunção de Luanda, filha de pais portugueses, viveu até aos 6 anos em Angola, donde partiu para Portugal.

Licenciou-se em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e foi professora do Ensino Público Secundário até 2013. Por esta altura, e acidentalmente, ouviu pela primeira vez os sons de Cabo Verde, nomeadamente a Morna, pela qual se apaixonou. A partir daí, começou a dedicar-se à música cabo-verdiana, tendo cantado pela primeira vez em público, no pavilhão Atlântico, aquando da comemoração do Dia de Cabo Verde na FIA, seguindo-se várias participações em eventos culturais na Associação Cabo-verdiana de Lisboa e na Associação de Carnide.

Para além destas participações em eventos culturais, foi convidada, em Junho de 2014 a fazer parte do grupo de músicos residentes da Casa da Morna & Semba, em Alcântara (Lisboa), sob a direção musical e acompanhamento do professor, compositor e pianista Humberto Ramos, onde permanece até ao momento.

A 4 de Novembro de 2014, foi convidada pelo Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, por recomendação do Presidente da Sociedade de Autores de Cabo Verde, para representar Cabo Verde por ocasião da Conferência “Cultura, Direito de Autor, Lusofonia e o Futuro”, em Lisboa, no Palácio das Necessidades.

Colabora com o grupo Mistiçu, designadamente em apresentações no Clube Ferroviário de Lisboa e na Fábrica do Braço de Prata.


[1]Definida como "canção popular de Cabo Verde, de andamento lento e carácter sentimental, interpretada ao som da viola e do cavaquinho" pela Infopédia, a morna é um estilo de música sensual e nostálgico, acompanhada por vezes ao piano e ao violino também, com letras que normalmente giram em torno dos grandes temas da identidade do país, e, claro, do amor, na perspetiva lírica de um ilhéu.


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Imagens: Acervo pessoal de Luísa Fresta.

Comentários

Ariane disse…
Simplement perçu et dit ! Obrigada pela partilha. .. K'morabeza