Letras das Ilhas

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Por Luísa Fresta


Antónia Pimentel, ou “uma outra maneira de tocar”

"Además Fernando trabaja de médico.
Prefiere las hierbas a las pastillas y cura la úlcera con cardosanto y huevo de paloma;
pero a las hierbas prefiere la propia mano.
Porque él cura tocando.
Y contando, que es otra manera de tocar"

Eduardo Galeano, Excerto da crónica Sucedidos/3, El libro de los abrazos, 1993


Tenho para mim que as melhores coisas da vida acontecem por acaso. Os encontros fundamentais, as descobertas que mudam uma vida, os momentos marcantes. Terá sido esse acaso matreiro e a imprevisibilidade dos dias que me conduziram a Antónia Pimentel, escritora originária da ilha fértil de S. Nicolau, em Cabo Verde. Tanha, nominho pelo qual é carinhosamente tratada por todos, não se revê nesta etiqueta, quiçá algo redutora. Ela diz-se contadora de histórias, numa lógica muita africana da transmissão oral de lendas e storias, perpetuando conhecimentos através de gerações, que também se destinam a moldar o carácter dos mais novos, educar e passar valores fundamentais para a vida.

Tanha é uma antiga professora que se dedica à escrita desde a infância, tempos em que a figura paterna (a que mais adiante voltaremos), omnipresente no seu discurso e nas suas memórias, teve um enorme ascendente na formação da sua personalidade. Paralelemente também intervém como ativista social através da associação Morabeza (termo e conceito sempre atuais quando se trata de Cabo Verde). A sua infância, em meio a uma localidade excecionalmente verdejante, foi rica em experiências que estão na base das suas narrativas, esculpiu-lhe a têmpera e ensinou-lhe o seu lugar no mundo, à altura do seu próprio olhar. Tem crónicas e contos espalhados por várias publicações, com sabor e textura, na sua língua natal, o crioulo de São Nicolau, e também em português. Muitos desses textos resultam de recordações de episódios testemunhados ou vividos enquanto criança, eternizando o talento herdado do pai, exímio narrador, e também do primo, que trazia contos de arrepiar quando o pai não estava presente, que punham a miudagem de cabelos em pé e coração aos pulos!

Quando me encontrei com a autora em plena primavera lisboeta, levava algumas perguntas no bolso, formuladas com a finalidade de descobrir mais sobre a sua obra e sobre si mesma, perceber o que a movia. A ventania da tarde ensolarada acabou por nos conduzir a um Café discreto onde nos refugiámos das violentas rajadas e construímos, durante um par de horas, um espaço de partilha informal e de conhecimento mútuo, enquanto sorvíamos um chá, entre sotaques tropicais e gargalhadas adolescentes. Depressa percebi que as minhas interrogações iam sendo esclarecidas espontaneamente antes de serem enunciadas. Deparei-me, sem surpresa, com uma comunicadora nata, toda ela claridades e transparências, arquiteta de cumplicidades várias, escritora da oralidade [Lembro-me de Guillermo Cabrera Infante (Prémio Cervantes 1997), que, no seu romance Tres Tristes Tigres, dizia que “la escritura no es más que un intento de atrapar la voz humana al vuelo, como aquel que dice”]. Não fazem falta perguntas diretas e inquisitórias, a sua vida não corre a esse ritmo: ela vai desenrolando o essencial do seu percurso literário e de vida, como um novelo, cheio de cor e de aromas, e o interlocutor deixa-se hipnotizar pelas histórias que conta e pelas outras, que se adivinham nos seus olhos claros como nuvens, muito vivos, que mudam de cor conforme a luz do dia ou a humidade do ar. Tanha afigura-se-me desde logo como uma mulher carismática, temperamental e de uma finíssima intuição.

Falámos do livro que publicou em co-autoria com Lourenço Gomes, intitulado Nhô N’Ton Julinhe & Nhô Candinhe. Trata-se de uma obra baseada numa intensa pesquisa e recolha de material sob forma de entrevistas a descendentes de pacientes e depoimentos espontâneos de quem beneficiou da sabedoria e do conhecimento empírico destes dois seres humanos de exceção: duas figuras ímpares de Canto Fajã (São Nicolau), que atuaram na área da medicina tradicional, a seu tempo, numa altura em que a medicina convencional era rara, por essas paragens, e a população tinha que se cingir aos ramêde de tera. A obra, para além de constituir um documento de inegável valor antropológico e de permitir uma perceção muito abrangente do que é e do que foi a ilha de São Nicolau, as espécies vegetais que por ali grassam e suas aplicações terapêuticas, constitui também uma oferta generosa e tentadora do ponto de vista turístico e social, que gera no leitor uma insaciável fome de saber sobre o local e as suas histórias.

Antónia Pimentel é filha de Nhô Candinhe, naturopata, vidente, pedagogo e homem de múltiplos saberes e competências, um “doutor do povo”, retratado nesta obra. Ele, que viveu sempre em harmonia com a natureza, foi, naquele tempo, um precursor, profundamente solidário com os seus conterrâneos, tendo dedicado a sua vida a mitigar o sofrimento dos que o procuravam, clamando muitas vezes o seu nome para as rochas que faziam eco e eram, como refere o livro, o “telefone” da época! O seu padrão ideológico e a sua visão desapegada das coisas materiais influenciaram de maneira decisiva a escritora cuja obra e perfil são hoje alvo da nossa atenção. Ele foi um pai extremoso, filantropo, um cidadão de coração aberto, gestor interventivo e algo excêntrico – um homem que contava histórias aos trabalhadores das suas hortas enquanto trabalhavam e que tomava café com eles em amena confraternização. Impossível esgotar nesta síntese a complexidade da figura de Nhô Candinhe, descrito como pessoa sedutora, intuitiva, de fala suave e persuasiva; homem de porte imponente e imensos olhos azuis, cândido de nome e de facto, traço de caráter que passou à filha pelos genes e pelo exemplo.

Nhô N’Ton Julinhe, “dotor d’osses”, “ortopedista tradicional” ou osteopata dos tempos antigos, é outra figura retratada e exaltada nesta obra, que nos abre os olhos para uma forma diferente de encarar os processos de diagnóstico e consequentes terapêuticas. As suas práticas foram, durante muito tempo, contestadas pelas autoridades sanitárias locais, uma vez que o seu conhecimento não se escudava numa base científica. Não obstante, foi uma figura muito respeitada na época e chegou a colaborar, numa ótica de complementaridade, com a medicina formal. Era reconhecidamente um curador com resultados evidenciados por pacientes que lhe passaram pelas mãos, literalmente.

Numa redação escorreita e empolgante, cheia de vivacidade, não isenta de rigor, Tanha relata, com o distanciamento possível, histórias que ficaram para a História. Como aquela da fome de 1940 que afetou a ilha de forma gravosa, consequência direta da escassez de alimentos provocada pelos efeitos da 2ª Guerra Mundial mas também de uma calamitosa praga de gafanhotos. A terrível conjugação desses dois fatores provocou uma vaga de fome dramática à qual cada um tentava escapar como podia. Muitos procuraram a ajuda de Nhô Candinhe como única hipótese de sobrevivência. Este, juntamente com João Lopes, um eminente intelectual da ilha, geriam a distribuição de alimentos armazenados (“comida de sistência”) socorrendo a população local numa altura em que nem os produtos da terra existiam, uma vez que a praga de gafanhotos “que veio por mar em camadas sobrepostas devorou todo o verde que ali havia”. Neste livro faz-se também referencia à postura conciliadora de Nhô Candinhe quanto à educação das crianças: dizia ele que antes dos sete anos não se devia bater a uma criança porque não o compreenderia…depois dessa idade já não era preciso porque as palavras bastavam. Não tenho dúvidas de que essa filosofia de vida foi determinante na formação da ativista e escritora Antónia Pimentel, uma mulher que reflete também a ideia da cabo-verdianidade, associada à facilidade de integração, à socialização, mantendo no entanto intacta a sua ligação à pátria e alimentando esse laço, através, nomeadamente, da preservação da língua, da gastronomia e da cultura. Ninguém escapa incólume a uma atmosfera familiar assim, onde a presença de uma mãe, doce, resiliente e igualmente solidária (que abria as portas da sua casa para dar de comer a quem lá chegasse e alojar quem estava à beira da exaustão), foi outro sólido pilar da sua educação.

O livro inclui também uma menção mais abreviada a outros terapeutas tradicionais da ilha que contribuíram para a saúde preventiva e curativa dos habitantes, na época que lhes coube viver e com os conhecimentos de que dispunham, para além de depoimentos emotivos e manuscritos de alguns pacientes, ou seus descendentes, cuja gratidão ultrapassa fronteiras e décadas de distância e que não quiseram deixar de relembrar respeitosamente estas duas figuras marcantes de Canto Fajã.

Tanha fala comigo sobre tudo isso com uma alegria contagiante e um riso franco, que abraça. Essas e outras histórias estão escritas nos seus genes e a sua vitalidade está impregnada dessas vivências. É um legado que pretende transmitir à sua própria descendência e fá-lo com elegância e candura. Bem à maneira de Cândido, seu pai.

Como leitora e ouvinte procurarei transmiti-lo também a meu modo, sempre que possível oralmente. Pois estou certa de que a pessoa que ouvir as suas histórias não as esquecerá e as passará a outros num ciclo sem fim em que elas se multiplicam, ganham outras nuances e se perpetuam. Inventariar histórias, registar saberes e práticas do passado perspetivando o futuro, não será também a própria História?






* Imagem: Por Luísa Fresta

Comentários

Ariane disse…
Vou procurar este livre e escritora. .. Merci, A+