Fernando Pessoa nas telas de Lívio de Morais

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Por Luísa Fresta


"L'écrivain rêve d'être le sculpteur des mots et le peintre des idées."
Paul Carvel


Lívio de Morais é um conhecido artista plástico moçambicano, professor de História de Arte do ensino secundário e investigador de Arte Africana, radicado em Portugal há décadas e recentemente homenageado pela Câmara Municipal de Sintra através da criação de uma Casa da Cultura com o seu nome.

O artista completou recentemente 70 anos, mas o seu sorriso e abertura deixam apenas vislumbrar uma curiosidade quase infantil perante a vida. Não vou detalhar a sua extensa e riquíssima biografia, mas apenas deixo aqui alguns tópicos, à laia de apresentação resumida: Lívio de Morais é licenciado em Artes Plásticas e posteriormente aprofundou os seus estudos nas áreas de Sociologia e Antropologia. À sua imensa obra, conotada com a Arte Contemporânea, "cola-se" esta etiqueta que faz mais sentido para os entendidos e estudiosos do que para os leigos e apreciadores de arte em geral em cujo grupo me incluo. Expõe individual e coletivamente desde há cerca de quatro décadas e as suas obras têm merecido reconhecimento internacional.

No quadro das comemorações dos 8 Séculos da Língua Portuguesa, fui convidada pela Associação homónima para a inauguração da exposição do artista sobre a obra de Pessoa, intitulada: "Um Olhar Africano Sobre Fernando Pessoa".

Fiquei intrigada, com uma inquietação febril que só poderia ter como desfecho a minha presença pontual neste evento. Na Galeria da sede do Instituto Camões, (nas instalações do esplendoroso Palacete Seixas, em Lisboa) percorri uma a uma as telas do mestre, todas elas relacionadas com Fernando Pessoa/ o ortónimo e os seus heterónimos, acompanhadas de excertos de poemas de todos esses poetas inventados.

Lívio de Morais, (o artista que nasceu dez anos após a morte prematura de Pessoa, aos 47 anos) vive o seu trabalho com um imenso rigor e este conduziu-o a uma exaustiva demanda junto da família e de instituições oficiais, onde pôde recolher autorizações várias, segundo nos disse, para a utilização das impressões digitais e da certidão de óbito de Fernando Pessoa, numa das suas obras. Ver como se conjuga esse perfeccionismo acurado com a espontaneidade e a segurança do traço firme, a luminosidade, a exuberância da cor e a africanidade da sua leitura da obra de Pessoa é uma descoberta inigualável. Durante cerca de uma hora Lívio de Morais discorreu com entusiasmo e um fino humor sobre as várias identidades de Pessoa, como poeta e ser humano excecionalmente carismático, rebelde e visionário.

Uma conferência à qual assistimos todos de pé, junto às telas, sob uma luz oblíqua de fim de tarde filtrada pelas janelas que se abrem sobre a Avenida da Liberdade; ouvimos, subjugados pela palavra do pintor, considerações curiosas e atentas sobre Fernando Pessoa, olhando pormenorizadamente para a pessoa que foi e o legado que deixou, muito para além das Letras portuguesas, inglesas e lusófonas. Lê-se no traço de Lívio de Morais e na sua visão entusiasta uma admiração vibrante e incontida - partilhada com a plateia -, pela diversidade e pela frontalidade demolidora do poeta. Um homem que, influenciado por várias culturas, foi sempre um precursor, um outsider, dono de uma franqueza cortante e de uma visão da vida política e social da época claramente à frente do seu tempo.

Junto a uma das telas, encontro este excerto, na voz de Alberto Caeiro:

"(…)Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a do meu nascimento e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus(…)."

(Não obstante a recomendação deste heterónimo, tentamos teimosamente, com a ajuda do pintor, reconstruir o que foram as suas várias vidas e adivinhar esses dias que foram apenas seus). Lívio diz-nos também que Pessoa não se deixava enclausurar nem mesmo pelos acordes tentadores do amor, ele que era um espírito indomável e só respirava plenamente numa atmosfera de perfeita liberdade, insubmissa e espaçosa. Ofélia, o seu amor, foi, ao que se sabe, a sua tentação mais duradoura; mas não obstante a proximidade intermitente entre ambos, o espaço vital do poeta acabava sempre por sobrepor-se a qualquer outro ensejo, fosse ele o mais melodioso canto de mulher.

O pintor trouxe-nos nesta exposição envolvente um olhar africano sobre as palavras de um homem que foi do mundo, sem amarras, sem pertenças, a não ser a língua portuguesa, que é a nossa pátria comum, e que vale a pena lembrar nesta altura em que simultaneamente se assinalam os 8 séculos da língua portuguesa e os 40 anos das independências da maioria das ex-colónias africanas de Portugal.

A exposição esteve patente ao público até 26 de Junho, mas a sua mensagem, tal como Mensagem, do poeta, perdura em nós ainda e sempre.

Lívio de Morais e Fernando Pessoa reuniram-se neste espaço para mostrar que a palavra poética se enche de cor, quando o traço do pintor descreve o sentido da poesia.

http://www.liviodemorais.com/index.php?p=30
http://www.instituto-camoes.pt/quem-somos/palacete-seixas



* Imagem: http://www.artafrica.info/html/artistas/artistaficha.php?ida=154

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