Adeus, civilidade!

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Por Jonathan Mendes Caris


Adeus, civilidade! Sou bárbaro demais para viver nessa época tão avançada, onde ainda há muita barbárie. Despeço-me de todas as reivindicações conquistadas ao longo dos séculos. Abdico dessa realidade tão moderna, avançada, intelectual, construída através de muitos conflitos ideológicos. Não me acostumei com essa liberdade de pensamento que o século XXI trouxe. Eu não sei cuidar da minha vida no admirável mundo novo. Tudo está de cabeça para baixo. Confesso. Será necessário alguém instruído, com sabedoria divina para me conduzir ao bom caminho da vida. Adeus, civilidade,! Tenho me tornado um monstro aceitando tanta sujeira dessa vida moderna.

Onde eu estava com a cabeça em aceitar a independência das instituições de um Estado Democrático em relação àquela que deveria ser a soberana com total movimentação na governança de um país? A Igreja sendo a casa de deus, há de desfrutar do poder total para a condução do bom funcionamento das instituições do Estado, a educação do povo e a manutenção da ordem civil, podendo intervir em qualquer lei e decisão do governo que seja considerado fora dos princípios que a igreja sustenta.

Onde eu estava com a cabeça que nem questionei essas invenções que vão contra o processo natural da vida? Sou ignorante o bastante que me esqueci que nada acontece na Terra sem a vontade do seu Criador. Tenho que aceitar o que está predestinado. Mesmo que isso possa custar minha vida. É a lei divina. É pecado interromper o processo natural da vida mesmo que este tenha sido resultado de uma barbárie. Mas é a lei de Deus, nada acontece sem a sua permissão. Adeus, civilidade! Confesso que gostei enquanto durou, é diferente, mas foi bom.

Nossos deputados evangélicos (não todos) agora estão empenhados em preparar o mundo para a volta do seu deus. Então, é necessário que a Câmara aprove a PEC 99/2011 de autoria do deputado João Campos – PSDB/GO, que autoriza a igreja questionar regras e leis junto ao Supremo Tribunal Federal. Não pode haver erros. É importante que haja leis e regras de acordo com o pensamento religioso. Sendo assim, é preciso que a Comissão de Constituição e Justiça(CCJ) da Câmara dos Deputados, aprove a manutenção defendida pelo deputado Eduardo Cunha – PMDB/RJ da Lei(PL) 5069/13 de Atendimento à Vítima de Violência Sexual, tornando crime qualquer forma de interrupção da vida. Ainda mais sendo esta, fruto da barbárie que agora eles defendem abertamente aprovando versões modernas de leis draconianas.

OK, CHEGA DE SARCASMO...

Esses deputados munidos de um analfabetismo intelectual reproduzem numa parcela conservadora de uma sociedade carente de conhecimento histórico, suas ignorâncias sustentadas por ideologias com n vertentes de interpretações. Carregados de crenças que não se aplica a toda população, uma vez que é assegurado pela Constituição a liberdade do indivíduo, estes, vociferam e decretam a todo o país suas convicções como verdade absoluta e assim encaminham uma nação livre para escolhas a novos tempos sombrios.

É natural do ser humano alimentar expectativas positivas a cada avançar de ano. Acreditamos que cada passo rumo ao futuro será uma evolução benéfica. Mas a involução também é possível e, é lamentável que as mudanças que vem ocorrendo no Brasil seja o inverso daquilo que esperamos. Política e religião não combinam, e isso já está mais que provado ao longo da história desse país e no mundo. Infelizmente estamos tendo que assistir a degradação de um Estado “laico” e o crescimento de políticas que vão contra o direito do cidadão em um país tecnicamente democrático.

Ver deputados como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano bradarem besteiras contra a filósofa francesa Simone de Beauvoir, pelo simples fato de ela ter dito nada mais que verdades sobre a condição da mulher no mundo, é de esperar que, com o nível de conhecimento histórico, político e social que detém esses homens, a regressão das conquistas da mulher e do estado independente venham a ser apenas uma lembrança de um tempo em que quase chegamos lá.

Mais uma entre outras tantas vítimas da violência machista, uma amiga agredida no último domingo (8) por um colega de classe da faculdade com um lamentável problema com o alcoolismo, procurou a Delegacia da Mulher para registrar queixa. Após esperar aproximadamente por 1 hora para ser atendida, sendo que não havia fluxo de atendimento, não foi possível registrar o B.O porque o responsável argumentou à vítima que o agressor não sendo seu namorado, marido ou amante, nada poderia fazer, uma vez que a Delegacia da Mulher só resolve problemas conjugais, domésticos, familiares e, caso a vítima tenha relação de afetividade com o agressor.

Independente do estado civil da vítima, ela é uma mulher e a violência é tão maléfica à solteira como à casada. Se de fato existe essa seleção no atendimento na “Delegacia da Mulher”, é urgentíssimo a contestação deste mecanismo. Entretanto, o atendimento feito por um homem é questionável o grau de seu comprometimento com a causa. E o que podemos ver deste foi a total falta de interesse pois, acredito eu, que ela deveria ser apenas mais uma que foi lá encher o seu saco.

Adeus, mundo moderno. É com muita tristeza que vejo os passos inversos nos levando à escuridão que inundou a Idade Média.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Crooked-571101031

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