BRIGHTON ou o campo da tolerância

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Por Luísa Fresta

Baseado num registo factual e interpretativo de Cristina Seixas


No espaço de escassos dias confrontei-me com duas reações antagónicas a um desabafo meu sobre relacionamentos e construção de pontes de diálogo no século XXI. A primeira foi uma interpelação brusca e negativa: alguém me acusou de estar desfasada da realidade e de viver numa bolha por acreditar que as pessoas podiam construir espaços de encontro e explorar intenções comuns, afinidades, enfim, partilhar sem reservas ideias e emoções, aceitar diferenças e buscar o consenso. E que se isso podia ser feito durante um dia, durante uma semana, podia tornar-se um doce hábito e servir de eixo a um projeto de vida.

A segunda opinião foi expressa com emoção e espontaneidade, textualmente por estas palavras: “Traga-nos um pouco da sua utopia! Queremos vê-la sempre!". (Não percebi se a mim ou à utopia). Em todo o caso somos indissociáveis. Decidi tomar esta exclamação como um incentivo e um cumprimento e continuar a fazer o que eu sempre fiz: acreditar nos afetos e nas pessoas e pensar que todos buscamos uma fórmula de felicidade que passa pelo respeito próprio e pela aceitação do outro.

Assim, quando a Cristina me enviou a sua carta com os registos factuais e emocionais da sua estadia em Brighton, acompanhando crianças portuguesas, senti-me amparada nos meus propósitos e percebi que, a existir utopia, ela constituía uma forma de aproximação a outras realidades e nunca um fator de exclusão e isolamento. E ela diz o seguinte:

"(…)O campo situa-se no Brighton College, fundado em 1845, um colégio bem ao estilo inglês, com edifícios gótico renascentistas cobertos de tijolos de terracota e umbrais das janelas em pedra decorada. Os salões (refeitório e salão nobre) possuem tetos em madeira finamente talhada e lustres opulentos. Os retratos na parede lembram os fundadores, antigos e atuais membros da direção e ilustres que aqui se formaram."

É neste ambiente tipicamente britânico que se juntam miúdos de mais de dez nacionalidades diferentes com o objetivo de aprenderem inglês (“learn english in the UK”) e de conviverem (“and find new friends”). A fórmula é simples mas funcional. No campo existem regras, que todos são obrigados a cumprir sob pena de terem de regressar aos seus países: acordar cedo, deitar cedo, não beber, não fumar, andar identificado, obedecer aos monitores, não usar linguagem obscena. As refeições são tomadas a horas certas e tem-se em conta as dietas / alergias / preferências de cada um. Existem menus diferenciados. Serve-se sobretudo frango, vaca ou peixe e muitos vegetais. O menu inclui uma opção vegetariana.

Todos respeitam e são respeitados. A palavra de ordem é tolerância, respeito e cordialidade. Não há televisão nem notícias. Embora todos tenham a palavra passe que dá acesso livre à rede da internet, ninguém se lembra de tal coisa, porque o dia é de tal forma preenchido que não há muito tempo.

Os líderes dos grupos e jovens das várias nacionalidades conversam e riem naturalmente. Todos têm curiosidade de saber um bocadinho sobre cada um dos outros e geram-se conversas agradáveis. Parece haver entre os líderes de grupo um sentido universalista de partilha, ou não estaríamos aqui. E acho que conseguimos transmitir esse mesmo espírito aos jovens que viemos acompanhar. A convivência entre todos é espantosa e damos conta que aqui as pessoas são apenas pessoas, com o único desejo comum de viverem em paz e serem felizes. Dei por mim a pensar nisto ao observar como, naturalmente, israelitas e árabes conversavam amenamente, tiravam fotos uns com os outros e trocavam endereços de email. O líder do grupo jordano segredou-me: “Isto é muito importante! Era isto que eu queria para os meus alunos. Aqui só importa sermos humanos.” E eu respondi-lhe que o verdadeiro propósito de qualquer ser humano é respeitar e ser respeitado e que talvez os alunos dele estivessem a sentir isso pela primeira vez.” Ele apertou-me a mão e deu-me razão. Perguntei-lhe ainda: “Sentes necessidade de falar de política ou de religião?” Ele disse-me que não. O importante é o respeito pela pessoa humana e consideramos que aqui estávamos em solo neutro e que precisávamos de mais solos destes no mundo. Em duas semanas de campo não houve nada que se pudesse parecer com desentendimento ou conflito. Se houve, eu não dei por nada, porque os monitores foram hábeis a geri-lo.

Quando se despediu, o líder do grupo árabe, o jordano Abdul, deixou uma mensagem especial de agradecimento a todos os monitores e direção do campo porque, para os alunos dele, esta experiência tinha sido muito valiosa. Depois vi-o abraçar o líder israelita e trocaram endereços de email. “De uma forma ou de outra, eu nunca te esqueceria.”, disse o israelita. A mim, Abdul ofereceu-me uma caneca para café que diz simplesmente, “To a friend”. Juro que fiquei comovida(…)".

Retomando a ideia de que as pessoas são apenas pessoas dei por mim a pensar que este local seria um laboratório social e antropológico, uma experiência piloto, porventura com resultados extrapoláveis e reproduzíveis noutras realidades e contextos. Porque não nos dedicamos ao essencial? Nunca se falou tanto de inteligência emocional, de criar empatia, de assertividade e de respeito pela diferença. No entanto, no dia-a-dia, dir-se-ia que há uma tendência generalizada para radicalizar posições e endurecer o discurso. Mas numa fase precoce da vida parece possível incutir valores que amenizem e contrariem essa tendência atual, como se constata num exemplo como este.

Mais adiante a Cristina dá também voz aos céticos, destacando os argumentos dos detratores deste projeto:

"(…) os ingleses têm uma segunda intenção ao organizar estes campos de férias: ganhar dinheiro a rodos, incentivar pessoas a aprender inglês e captar futuros imigrantes. É uma espécie de novo colonialismo, disfarçado de “boa vontade”, mas que de inocente não tem nada. Basta ver o destino de emigração para muitos (…)".

Considerando que este último argumento pode ser válido, ele será, em todo o caso, apenas uma parte da verdade.

Até onde eu sei ganhar dinheiro a rodos e incentivar as pessoas a aprenderem inglês não é crime. Quisera eu ser acusada de tal "crime", mas até ao dia de hoje nunca consegui tornar-me sequer suspeita de tal proeza. Se na génese de tais cursos de férias existe uma sub-reptícia estratégia de marketing político ou uma intenção marcadamente comercial, uma visão expansionista ou um conjunto de pequenas gentilezas falaciosas, tal não me choca nem um pouco enquanto cidadã. É assim em todo o lado. Seria sim uma enorme utopia, bem maior do que aquelas de que sou acusada, considerar que um projeto dessa dimensão e com tal nível de organização poderia prescindir de um objetivo comercial palpável e previsível. Como diz João César das Neves: "Não há almoços grátis".

Para mim, desde que as regras do jogo sejam claras e existam benefícios partilhados, não tenho pruridos de ordem ética (neste contexto, esclareço). Se, para além da aprendizagem da língua e da cultura local, estes campos conseguem proporcionar a alunos e professores experiências de socialização baseadas na tolerância e no convívio aberto, com esta dimensão e profundidade (tal como descrito em pormenor pela Cristina), não creio que venha mal ao mundo por isso. Muito pelo contrário.


[1] Nacionalidades presentes no campo de estudos da Ardmore Schools, em Brighton College: francesa, alemã, portuguesa, italiana, israelita, emiratos árabes, russa, inglesa, checa, holandesa japonesa, tailandesa e chinesa.

Imagens: Cristina Seixas


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