A geografia das palavras no olhar de Danny Spínola

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Por Luísa Fresta


“La literatura no es otra cosa que un sueño dirigido”
Jorge Luis Borges


Por um improvável acaso cruzei-me com a obra deste autor multifacetado num dia sombrio para as artes e para todos os amantes da poesia; no dia 24 de Julho de 2015, quando Corsino Fortes, o aclamado poeta, político, diplomata e juiz cabo-verdiano tinha acabado de partir, li pela primeira vez as palavras de Danny Spínola.

Caiu-me nas mãos o seu livro de poesia Pasárgadas de Sol, com o qual viria a ter uma relação próxima de entendimento e cumplicidade. Li-o de um fôlego, ludicamente primeiro, depois lucidamente, com mais atenção aos detalhes e descobrindo padrões matemáticos insuspeitáveis. Por via de um convite inusitado, acabaria por apresentar esta obra pouco depois, e adentrar assim na geografia das palavras de DS.

Pasárgadas de Sol, que desde logo remete para o poema de Manuel Bandeira (Vou-me Embora p’ra Pasárgada) é uma obra estruturada de maneira rigorosa que nos convida a alimentar o sonho de uma vida outra, para lá do razoável, para lá do alcançável, nesse Éden idealizado onde todos os sonhos são realizáveis.

A palavra sol é omnipresente neste livro, assim como todo um contexto associado a elementos da natureza que o poeta maneja com habilidade de artesão, com precisão de sniper e ouvido de músico, tal como exaltado com clareza no seu Prenúncio:

«(…) Como água e como sol que somos,
De nós mesmos nos alimentamos e procriamos
Inventando cascatas de luz no escuro das trevas
Concebendo luares de água em inóspitos desertos
Construindo pontes, jangadas, céus e paisagens mil.(…)»

Nesta obra se fala da Pasárgada ficcionada como lugar de evasão e felicidade absoluta, do mito da Criação, da expulsão do paraíso e da linguagem rubra e invasora dos vulcões.

O poeta homenageia também as suas gentes, o meio rural e fala «(…)Desses que, por ironia, se nominaram vadios,

Ao renegar a escravatura e a humilhação,(…)»

Aqueles escravos fugidos que abriram caminho na escuridão da ignomínia para que outros pudessem cantá-los. O nascimento da nação crioula, o desejo de ficar em contraponto à necessidade de partir, fazem parte da cabo-verdianidade que subsiste na alma dos nossos irmãos ilhéus, nós que, com corpo e alma enraizados num enorme continente, não temos o mar entre nós, um mar imenso de palavras e de silêncios a que convencionámos chamar saudade.

Descubro, sem surpresa, poemas em louvor da Mulher, do amor, em todas as suas gradações e cambiantes, cantados por um intenso e pujante sujeito lírico. O autor interpela a figura feminina com doçura e apego, colocando-a num imenso pedestal de terra, de mar e de céu, num lugar onde é simultaneamente intocável e acessível. Uma mulher crioula e universal chamada a participar na festa dos sentidos.

Enfim, Pasárgadas de Sol assemelha-se a uma imensa tela em que cada palavra é um contorno, uma curva, um movimento, ou uma pincelada segura de aguarelista, com profundidade, brilho e harmonia.

Já em Delírios da Cidade, conjunto de contos pós-modernos (fico em dúvida se os colocaria na prateleira dos sonhos contados ou dos contos sonhados, numa óptica que lembra o surrealismo) o autor percorre, através de uma linguagem eminentemente poética, e dentro de uma teia quase sempre onírica, históricas fantasmáticas, recriadas ou baseadas em relatos reais ou imaginários, usando a palavra como uma ferramenta suave de criação de um mundo interior no qual tudo é possível, excepto o previsível e o trivial: todos os imponderáveis ganham aí espaço e o improvável torna-se lícito e plausível. Na sua linguagem narrativa, onde a poesia marca o tom, uma introdução inócua e transparente vai adquirindo vibração e ritmo ao longo das palavras que desfilam como pequenos soldados e nos conduzem ao inevitável confronto entre o esperado, o desejado, e o desenrolar possível da história; dentro das circunstâncias fantasiosas e mágicas deste planeta paralelo, onde o conceito de verosimilhança ganha contornos próprios. Os seus textos, as suas histórias, têm para mim um leve tempero de realismo mágico, de real maravilhoso; para além das classificações mais ou menos discutíveis e moldáveis, têm sobretudo sabor e densidade, cor e temperatura, com laivos de alucinação. 

Se por um lado apetece cantar os seus poemas - melódicos e ritmados-, como nos primórdios da poesia, dir-se-ia também que os seus contos, imagéticos q.b., anseiam por levar as suas personagens e cenários para fora do papel, libertando-os do enclausuramento a que estão votados nas masmorras sombrias de um livro fechado. Como num filme, as imagens sucedem-se ante os nossos olhos; e se os fecharmos, pode muito bem suceder que um parágrafo se converta num primeiro-plano e uma curta-metragem apareça como por encanto.

Acontece, ao longo dos seus textos, tropeçarmos em referências bíblicas (como Rosa de Saron, intermediário/a, depositário e transmissor de alguns deles); mas também encontramos, por outro lado, no seu conto intitulado A Noiva, um retomar do velho mito da rapariga bela e assustadora que, mercê de uma tragédia vivida no passado, se vinga no mundo dos vivos, assombrando, assombrosa, quem se atravessa no seu caminho. Esta figura tem sido perpetuada ao longo dos tempos e recriada pelo imaginário popular em muitos pontos do globo e em muitas culturas, através de lendas e também do cinema ; DS propõe aqui uma roupagem diferente e igualmente sedutora, numa breve referência a essa mulher diáfana e fatal, de beleza imortal e arrebatadora, simbolizando o abismo, cativa da sua própria sorte numa órbita de desespero e trevas. 

Nestes contos afloram-se temas tão diversos como as fomes, a seca, a morte ou a emigração forçada, sempre presentes na memória colectiva do povo cabo-verdiano; a crise de valores das sociedades contemporâneas, a sua progressiva desumanização, a futilidade e a superficialidade, o flagelo da droga, mas também se abrem amplas janelas de esperança para a essência do ser humano, a sua capacidade de amar de forma altruísta, e se tocam notas mais líricas mescladas com um discretíssimo erotismo (a exemplo de A Invenção do Amor).

Não obstante a intenção primeira do autor (e as suas próprias influências), como criador e cultor da palavra, creio sentir a presença de alguns outros escritores que marcaram precocemente as minhas leituras: desde logo Júlio Cortázar e Alejo Carpentier, na sua vertente de contistas; uma interpretação que assumo como um devaneio pessoal, usando do meu quinhão de liberdade como leitora, e que não se resume forçosamente a semelhança de cenários, estilos ou correntes estéticas. Esta comparação em que incorro, quiçá por algum desconhecimento formal de uns e outros, vem-me ao espírito pelo gosto que deixam na boca, pela criação de universos paralelos (como no conto O Sósia, de DS), pelo colorido e pelo arrepio, pela maneira como transformam, todos eles, embora cada um a seu modo, a realidade que julgamos conhecer, moldando-a a seu bel-prazer, desafiando as circunstâncias do dia-a-dia e criando velocidades e ambientes avessos a todas as leis da física e do bom senso, onde o absurdo toma o lugar da norma. Ainda que não se trate de interferências, mesmo que inconscientes ou episódicas, mas tão-somente de coincidências ou de alguma forma de entendimento telepático, admito que os autores possam ter sido expostos à mesma luz intensa, ao mesmo isolamento (curioso notar que em castelhano se usa a palavra “aislamiento”, proveniente de “isla”, que significa textualmente: pôr numa ilha) geográfico ou da alma; expostos também ao mesmo sol e aos incêndios do espírito, inspiradores e redentores, mas que só os grandes criadores sabem transformar em arte. (E a propósito de isolamento, não posso deixar de recordar Cortázar: “Estoy tan solo como este gato, y mucho más solo porque lo sé y él no”).

Quanto a influências de Jorge Luís Borges, assumidas claramente por DS, não é difícil encontrá-las em face da transfiguração da realidade e da fragmentação do tempo, características da escrita de Borges.

A obra diversificada de DS inclui igualmente vários volumes de divulgação de artistas plásticos de Cabo Verde. (Note-se que ele mesmo se dedica também às artes plásticas, numa dimensão distinta e complementar daquela em que se circunscreve à palavra e suas implicações); é um agente cultural acurado que procura dar a conhecer, de forma sistemática e rigorosa, a obra de dezenas de pintores do seu país. 

Nos dois volumes que me chegaram às mãos (Cabo Verde E As Artes Plásticas – Percurso & Perspectiva) retrata-se a evolução da pintura do arquipélago desde a Independência. Os artistas mencionados respondem a um questionário tipo sobre a sua obra, no qual detalham um pouco do seu percurso e também das suas expectativas face ao estado das artes plásticas no arquipélago.

DS analisa e apresenta as suas obras com um cuidado cirúrgico, fruto de um intenso trabalho de prospecção, identificação, catalogação e observação directa de grande parte das obras, para não falsear a apreciação, preparando o leitor/ visitante destas mini exposições em forma de livro para a diversidade de técnicas e estilos, qualidade e temática, através de textos críticos, analíticos e interpretativos. Nestes livros se encontram, por exemplo, composições de pintores como os irmãos David Levy Lima e Miguel Levy, conotados com o impressionismo, Kiki Lima, Lito Silva, Heleno Barbosa Moreira e também aquela que é designada como a única pintora naïf cabo-verdiana, Maria Alice Fernandes. Todos estão entre os meus favoritos, entre um conjunto de artistas notáveis cuja obra mereceria, individualmente, uma análise à lupa.

Assim sendo, e em jeito de conclusão, diria que este autor eclético, discreto e universalista ganha amplitude quando olhado através da sua obra. DS não é, de todo, uma soma de títulos académicos e de cargos institucionais, ele é, sobretudo, um amante das artes, um observador minucioso que nutre um profundo respeito pela arte em geral, pelas Letras, pelas cores, traços e música de Cabo Verde, por todos os vestígios de insularidade, onde quer que ela esteja, até nas distantes ilhas da diáspora. 


[1]  Da Associação Cabo-verdiana de Lisboa, na pessoa do Dr. José Luís Hopffer Almada.

[2] Nomeadamente na longa-metragem de Filipe Henriques: O Espinho da Rosa


* Imagem: Google.

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