Retrato pensado de Armando Tito

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Por Luísa Fresta


Noite de 6 de Junho de 2014. O evento, que já me inspirou outras linhas com propósitos diferentes, viria a afirmar-se determinante no meu percurso, a vários níveis, sem que eu o pudesse saber na altura. Afinal, acorri àquela festa sobre Cabo Verde acedendo a um convite institucional, sobretudo com o intuito de ver um documentário sobre Cesária Évora , por interesse profissional e pessoal.

Mas naquele espaço do Instituto Francês de Portugal (onde travei volátil amizade com a moça alta e notei pela primeira vez o cavalheiro francês que creio ser também conhecido por “Senhor Comandante”), vi e ouvi, também pela primeira vez, alguns artistas de exceção: poetas e declamadores do grupo TAPOÉ (anagrama de poeta) interpretando soberbamente poemas de autores cabo-verdianos com ligações à língua e à cultura francesa; a jovem artista plástica Miriam Furtado e a sua original exposição de pintura vitral intitulada “See through me”, com peças resultantes de moldes feitos a partir do seu corpo, para além de outras obras de técnica mista; a cantora Sant’Ana, cujo percurso viria a acompanhar mais de perto e com um interesse crescente; e o músico Armando Tito, objeto e fundamento destas linhas, guitarrista, um ícone da música cabo-verdiana. Trata-se de uma figura que quase passaria despercebida como pessoa, tal é a sua discrição, não fora o seu carisma e simpatia, a maneira peculiar de fazer cantar o seu violão e a sua performance singular.

Até então os meus ídolos, no que se refere à guitarra, eram poucos: Carlos Santana, Carlos Paredes, Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas), João Gilberto, B.B.King…talvez não tanto por ser particularmente seletiva mas antes pela minha estrondosa ignorância no que se refere aos virtuosos dos instrumentos de cordas, que os leigos classificam genericamente guitarra, violão ou viola, mas os especialistas nomeiam e destrinçam consoante o número de cordas, o facto de ser um instrumento acústico ou elétrico, entre diversos parâmetros relevantes que determinam outras classificações.

Voltando a Armando Tito, naquela noite do IFP, ele protagonizou uma impressionante cena de acrobacia e virtuosismo, que hoje sei ser a sua imagem de marca: com a guitarra pelas costas continuava a dedilhar as cordas, sem uma única falha, soltando as notas como quem se dá a conhecer, na linguagem que lhe é intrínseca. O público à sua volta aplaudia, empolgado, e o músico retribuía o carinho tocando com afinco e destreza, dando mostras de simplicidade natural e comunicativa. Armando Tito e o Diretor da instituição brindaram ainda a assistência, numerosa e participativa, com um número musical de improviso: Azouz Begag cantou, afinadinho e compenetrado, uma versão adaptada de La Vie en Rose, acompanhado ao violão pelo homem que muitos tratam por Maestro. Foi um dos momentos altos da noite, pela surpresa e pela emoção contida na prestação daquele duo improvável. 

Depois dessa noite memorável tive ocasião de testemunhar a exibição do músico com o esplêndido trio Morabeza, e tentei saber quem é Armando Tito, para além do que nos mostra, conhecer um pouco da lenda que existe por trás do homem ou vice-versa. 

Lembrei-me que alguém me disse um dia: “Não te consigo dizer quem sou”. Talvez seja um apanágio dos espíritos gigantes e puros, que não perdem tempo a definir-se, pois o seu olhar é virado para o mundo.

Armando Tito, nascido no Mindelo (S.Vicente, Cabo Verde) a 18 de Julho de 1944 é, desde há décadas, um dos mais respeitados executantes de violão do país e tem prestigiado a música cabo-verdiana pelo mundo fora, acompanhando um sem-fim de intérpretes de renome ao longo da sua carreira (O caso de Bana e de Cesária Évora, esta última desde a adolescência). 

Este músico de vocação precoce, fez parte do conjunto Voz de Cabo Verde, ainda com Luís Morais; para além do seu percurso na órbita de outros artistas, tem tocado a solo inúmeras vezes em Portugal, onde está radicado há muitos anos, inclusive em contextos mais familiares e restritos.

Sob a capa da sua imagem pública esconde-se um homem de sorriso tímido e extrema afabilidade. Quem esteve na sua presença e trocou algumas impressões descontraídas com ele, entre trivialidades e conversas ligadas à sua história, pôde testemunhar a sua popularidade e a maneira sempre atenta e disponível com que convive socialmente com o seu público. Tito parece ser um homem sereno, genuinamente simples e despretensioso, completamente alheio ao vedetismo ao qual sucumbem muitos dos artistas da sua craveira reconhecidos e admirados localmente e além-fronteiras. 

Assisti, fascinada, à sua performance no clube B.Leza, durante a madrugada de 12 para 13 de Junho, após uma animada tarde lisboeta logo convertida em noite de Santo António, e precedendo um atribulado regresso a casa após o nascer do dia. E percebi que as memórias pessoais e coletivas que me conduziram às minhas e às suas notas eram, na verdade, fragmentos coloridos e sonoros que se foram aglomerando ao longo de um ano, formando uma espécie de enorme vitral multicor no qual se enquadra a figura do artista. 

Ficou-me a impressão de que o Maestro vive para e pela música, sempre com um olho zeloso e protetor no seu inseparável violão, que o prolonga e o completa, tal é a intimidade e harmonia entre um e outro. 




[1] «Cesária Évora - Morna Blues», um documentário francês de Eric Mulet e Anaïs Prosaic.
[1]  Tal como o cavalheiro francês, trata-se de uma personagem da minha crónica intitulada «A Especialista», da série: Memórias Inventadas (Parte III).

* Imagem: Google

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