Memórias Inventadas (PARTE IV)

*
Por Luísa Fresta

Mario Benedetti


"Há uma espécie de reflexo automático nisso de falar da morte e, em seguida, olhar o relógio."
Mario Benedetti, excerto de A Trégua
 

Naquele dia, tu lembraste-me Benedetti e eu lembrei-me de como ele me tinha trazido a uma parte de mim que desconhecia. E disse-te, simplesmente, que ele, Benedetti, era o homem que me tinha trazido de volta à poesia.

De imediato reagiste: "Mas que coisa bonita, Luísa! Já escreveu sobre isso? Escreva!".

Eu levo a sério os desafios dos amigos, as provocações intelectuais. Sempre fui arisca a ordens diretas e nem sempre reajo bem à autoridade imposta pela força, «porque sim», pela brutalidade, pelos constrangimentos sociais, pelas ramificações das dinastias modernas. Em contrapartida levo a sério os pedidos dos amigos, que me soam como quase-ordem, doces, irrecusáveis, empolgantes. É o caso. O uso do imperativo é aqui tido como o estímulo que me faltava para desencadear o processo de escrita, de reflexão, de busca dentro dos meus arquivos de memória, quantos dos quais recriados.

Mário Benedetti foi o responsável pelo meu regresso ao começo. Eu não gostava de poesia, que tinha abandonado há mais de 30 anos, como leitora e tímida artífice. Nas minhas estantes a poesia tinha um lugar sombrio e apagado, poetas de várias línguas épocas e estilos misturavam-se por ordem alfabética com romancistas e mantinham-me, eles, os poetas, a respeitosa distância. Passava pela prateleira com as pontas dos dedos dançando amedrontadas pelas lombadas dos livros de poesia. Algumas vezes ousei abri-los ao acaso e ler atabalhoadamente um verso. Mas a palavra prendia-se-me na garganta, o sentido colava-se ao papel e eu ficava com as mãos cheios de um vazio inútil difícil de entregar à água corrente. Sempre aquela mancha inglória nos olhos que me impedia de ler e receber a palavra em mim. Eu não estava capaz de acolher essa imensa dádiva e a palavra dos poetas não encontrava eco nos meus olhos, mas apenas um imenso mar de incompreensão e espanto. Uma ausência total de empatia, um assombro, um terror paralisante. Poesia era isso para mim: abismo e fuga, alheamento, arrepio e um gelo na espinha. 

Depois veio Benedetti; não sei em que dia terei eu lido isto:

"Hagamos un trato

Compañera
usted sabe
puede contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo

si alguna vez
advierte
que la miro a los ojos
y una veta de amor
reconoce en los míos
no alerte sus fusiles
ni piense qué delirio
a pesar de la veta
o tal vez porque existe
usted puede contar
conmigo

si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo
no piense qué flojera
igual puede contar
conmigo

pero hagamos un trato
yo quisiera contar
con usted

es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede
contar conmigo."

E depois li "Ustedes y nosotros" e "Historia de vampiros" e "Cuando éramos niños":

"Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.(…)"


Entre mim e ele firmou-se esse sólido pacto que me trouxe até hoje correndo atrás da palavra poética. O trato é simples: sabemos ambos que podemos contar um com o outro. Ele deixa-se ler, serve-me a sua palavra à sobremesa fria dos jantares formais como ao pequeno-almoço matutino dos verões, ele está sempre perto, ao alcance da minha curiosidade e do meu torpor. E eu perco-lhe o medo, sorvo-lhe a música com alegria, com surpresa, embevecida ou atordoada. Mas não fujo mais da voz que se materializa na pancada certeira dos seus versos. Depois Mario foi além do trato: ele trouxe-me outras palavras, distantes, vizinhas, correndo por águas calmas ou jorrando em tsunamis destruidores. Palavras de amor, de arrebatamento e de incredulidade; palavras simples que atam laços e outras que colam asas ao sono. Palavras duras, amargas, provocantes ou delirantes. Aos poucos fui-lhes perdendo o medo a todos: palavras e poetas. De mansinho fui chegando a Mia Couto, percebendo a melodia que desliza pelas histórias cantadas no papel, a José Luís Mendonça, que convida a uma leitura de olhos pasmados e boca aberta de sede, numa angolanidade que se desprende dos frutos, das mulheres desenhadas e das vivências. E fui ganhando coragem e ousando todos os dias um pouco mais: Verlaine, António Jacinto, Vinícius e Drummond de Andrade, meus velhos companheiros de adolescência, ajudaram-me na caminhada. Fui chegando timidamente a Pessoa, Gabriela Mistral, Alda Lara, David Mourão Ferreira e aterrei, por alturas do último natal, num Coração de Lava, de José Luís Tavares, o autor que me trouxe o magma para dentro de casa, enquanto na ilha do Fogo, em Cabo Verde, sete bocas se incendiavam com o vermelho vivo de um vulcão cansado da mansa quietude e do silêncio áspero dos anos de clausura.

Muitos outros poetas me olham agora através das palavras que inventam e que descrevem uma vida como cada um vê e sente. O movimento aldravianista de Minas Gerais; Mariem Mint Derwich, mauritana e francesa, de palavras substanciais e esvoaçantes, que descreve o universo feminino com coragem e uma poesia transbordante de cor e desejo; Edweine Loureiro, esse coração leve e redondo que serve a palavra como uma fruta fresca, uma manhã de sol ou um pão acabado de fazer, um pouco ao estilo do grande José Martí. Tu, Germano Xavier, parceiro de aventuras mil, que reinventaste a minha adolescência literária, esculpes palavras, sílabas e arritmias, narras o insólito do provável quotidiano, escreves o futuro pelas linhas tortas da imaginação, contas o inenarrável pela fluidez líquida da poesia. E muitos outros pintores de textos me abrem as janelas da sua criação a cada instante que passa.

Mas foi Mario Benedetti, e só ele, quem me fez percorrer o caminho desde o início. Logo eu que não gostava de poesia. 


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