Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte IV)

*

Viana, caríssimo amigo,

Enfim um momento a sós, entre mim e este papel virtual que te será levado por uma pomba virtual também! Cada vez temos mais dificuldade em distinguir o real do virtual, dificuldade acrescida quando se fala em “realidade virtual”. Não é preciso partilharmos o mesmo espaço físico para falarmos nem vermos alguém em tempo real, muito menos para a conversa escrita, sendo que isso já deixou de ser novidade há muito tempo. Porém, creio que restam dois desafios a superar para que a comunicação seja uma simulação perfeita da vida, da vida tangível: transmitir o cheiro e o toque à distância! Talvez neste preciso momento já se esteja algures a trabalhar nessa possibilidade, em todo o caso gosto de imaginar que nenhuma aplicação vai substituir a sensação do abraço e a mistura de cheiros quando duas pessoas se encontram e se tocam, amigavelmente ou amorosamente.

As nossas cartas, as nossas trocas de impressões escritas, são a única forma de comunicação que usamos. Por isso temos que ser bastante criativos, explícitos e até uma e outra vez um tudo- nada exuberantes para compensarmos a falta de outros tipos de comunicação, não achas, Viana?

Perdoa-me por isso algum exagero nas descrições, que seriam feitas apenas por meias-palavras e algumas boas gargalhadas se estivéssemos agora os dois diante de um café fumegante.

Agora, falando do que me contas, quando falas de Luiz Gonzaga, sabes o que me vem à mente? (canta comigo!):

"Aquela sanfona branca
Aquele chapéu de couro
É quem meu povo proclama
Luiz Gonzaga é de ouro
Aquele tom nordestino
A voz sai do coração
É ele o rei do baião, é Luiz
É cantador do sertão
É filho de Januário
É quem canta o Juazeiro
É festa, é povo, Luiz alegria
Luiz Gonzaga é poesia"

Benito di Paula. Infância. Angola. Milho. Rádio. E o mesmo cheiro a milho assado que referes…não consegui ler a tua carta sem cantar. Porque será que a música é tão importante para nós, para a nossa maneira de descrevermos a vida um ao outro? Luiz Gonzaga e todo o universo a ele associado traz-me à memória cheiros de infância, de comida, de bebida, de terra molhada da chuva, de calor. Crescemos ambos no hemisfério Sul (tu e eu) e os mecanismos que nos movem, as chaves emocionais, são bastante parecidos; sempre tive essa suspeita que venho confirmando a cada dia.

Agora, Viana, sinto-me um pouco culpada por teres perdido uma festa para me escreveres. Preferia que tivesses estado lá, ouvindo a Elba, comendo aquelas coisas coloridas das feiras, bebendo a cor dos fogos, cheirando o ambiente. Chegarias a casa provavelmente com cheiro de fritos, de carvão e açúcar e com pássaros na cabeça, e talvez me escrevesses noutro dia, noutra noite. Talvez fossem só breves palavras, mas eu ficaria feliz por imaginar-te passeando entre O Maior São João do Mundo. Promete que não falharás outra vez contigo e deixarás solta a criança que existe em ti, na próxima festa, na próxima oportunidade. Essa comunhão com as pessoas reais, que podes tocar e sentir à tua volta é tão importante como a fusão com a natureza, que mencionas, e bem, referindo-te à Chapada Diamantina.

Dizes-me também que amarias Portugal e eu tenho a convicção de que Portugal te retribuiria com o mesmo amor, constante e respeitoso, pela forma delicada e curiosa como abordas as pessoas e os outros, mesmo que Portugal, para ti, não seja “os outros”, mas apenas uma parte de ti mesmo com a qual ainda não te confrontaste. Quando estiveres por cá, não sei como nem quando, levo-te a beber uma mini ou uma imperial e a comer um bacalhau à lagareiro. Ou uns choquinhos com tinta, ou uma dourada escalada. “Topas?”. Depois, para digerir, um passeio a Sintra, onde descobriremos ambos, pelos teus olhos, uma vila que é património da humanidade, com múltiplos recantos dignos de interesse, o Palácio da Pena, a Quinta da Regaleira, capazes de criarem só para ti os abismos que sugam e que tanto te seduzem. Traz a família, traz o teu amor, venham todos, quero servir de cicerone e aprender a conhecer também a minha terra pelo vosso espanto e pelo vosso riso.

Irlanda e Itália? Sem dúvida belas escolham também. Fazendo uma pequena brincadeira vou dizer-te as primeiras palavras que me ocorrem, sobre um e outro país: Whisky e …ópera!

Eu acrescentaria ainda Cuba, Cabo-Verde (Praia, Mindelo, ilha de São Nicolau…para começar)… será que estou a ser abduzida pelo encanto da insularidade? E voltar a São Tomé, logo que possa. Enquanto os ilhéus sofrem dessa vontade de partir para além do mar, poderemos nós, continentais, ser vítimas da síndrome oposta? Hummm, caberia aqui um estudo antropológico, não achas?

Gostei da tua forma de definir o meu estado de espírito, que me “estou a cabo-verdear na alma”. (Na alma e no corpo, isso sim!) Palavras bonitas e perspicazes. E não é que estou mesmo? Obrigada pela explicação sobre língua e dialeto. São questões que me perseguem ou vice-versa. De tanto nos perseguirmos mutualmente parecemos uma pescadinha de rabo na boca. Mas esta questão do crioulo cabo-verdiano é complexa e apaixonante. Ontem mesmo conheci uma senhora encantadora, que me disse com uma exclamação cheia de certezas (eu tenho muito poucas mas os meus interlocutores vivem quase sempre cheios delas): “O crioulo não é língua, é dialeto! O crioulo não tem regras, tal como o amor. Não se pode aprisionar o crioulo, nem se pode amarrar o amor”. Esta frase poderia ser confundida com um quase-preconceito algo poético e isento de maldade. Curioso é o fato de ser a opinião de uma falante nativa. Fiquei arrasada e fascinada ao mesmo tempo com tais declarações. Eu sou estudante, e os estudantes precisam de regras e de certezas, e têm pavor de ambiguidades. Eu, em todo o caso. Aqui percebi que este posicionamento é o de muitos falantes, porque não querem que a sua língua, ou dialeto, como alguns chamam, seja acorrentada a um conjunto de regras. Ânsias de liberdade ou desvario poético? Fiquei parte da noite a matutar nestas palavras, eu sou assim, que fazer? O meu professor vai soltar uma sonora gargalhada quando eu partilhar esta conversa com ele.

O amor não tem regras. Será? Amor e crioulo serão uma e a mesma coisa? Agora percebes porque por vezes tenho dificuldade em adormecer.

Olha, Viana, eu não te disse ainda que gosto do teu estilo de escrever cartas, sei que é natural, surge como a espuma de uma onda, obedece a um ritmo não estudado. Mas eu gosto, a sério. Tu não tens noção de que frases como “Sabemos.” têm para mim um impacto fortíssimo. Em tempos conheci uma pessoa que se exprimia assim e me assustava. Achava parcas as palavras, uma fuga, uma cobardia, quase um desafio. Mas agora eu gosto porque sabes usar essa economia de recursos para dizeres, sugerires e concluir. Creio que sabes dançar muito bem com as palavras e eu aprendo contigo. “Sabemos.” Quanta coisa contida nesta palavra feita oração. Talvez um dia a arrume na gaveta das coisas resolvidas. A memória das palavras pode ser dolorosa, confusa e libertadora também.

Mas o mundo dos poetas e dos sonhadores como nós alimenta-se também de fatos concretos. A lei aprovada esta semana na Nigéria proibindo a mutilação genital feminina parece-me um enorme passo positivo. Uma lei não resolve tudo mas é um começo e um compromisso com uma ideia. Uma atrocidade deste calibre não pode nunca legitimar-se por uma suposta tradição. Enfim uma lufada de ar fresco num mundo imerso em dramas e interrogações.

Viana, lembrei-me de te contar um episódio engraçado, para terminar esta nossa conversinha saborosa: um amigo meu de longa data contou-me, a propósito de cartas, que manteve até há poucos anos, com um amigo de infância, uma troca de cartas regular entre a França e o Senegal; imaginas do que falavam eles? Pois bem, jogavam damas por carta e em cada carta avançavam uma jogada. É preciso dizer que no Senegal esse jogo é muito difundido e apreciado, e através dele estes dois amigos separados geograficamente cimentaram uma relação muito próxima ao longo dos anos e das gerações. Achei comovente, esta história.

Agora eu deixo-te nas mãos do sábado esperando que possas usufruir plenamente do teu fim-de-semana, com milho, com pipocas, sol e muita música. Eu amanhã vou à feira do livro, local mágico onde se lê, se comem farturas e se sente o cheiro dos livros de alfarrabistas.

Um beijo luso e tropical para ti.
Até muito em breve,
Clara.

Lisboa, 6 de junho de 2015.


*

Clara,

O dia aqui é frio, num Pernambuco de Garanhuns, conhecida também como Suíça Pernambucana ou, ainda, Cidade das Flores. Gosto muito daqui, do clima, das lembranças que tenho de quando menino. Sabe que um dia, lá nos tempos de eu-pequeno, meu padrinho Tibiro me deu uma quantia em dinheiro como presente de aniversário, alegando que assim era melhor, pois eu poderia comprar o que eu realmente quisesse e ele, de pronto, eliminaria qualquer risco de eu não admirar o presente que ele porventura me desse – meu padrinho dizia que quando comecei a crescer, ficou mais difícil de escolher presentes... - e aí, eis que guardei o valor até o fim daquele ano, em longos 6 meses, para que quando viajássemos para o estado natal do meu pai, trajeto que fazíamos todos os anos nos meses de dezembro e janeiro, neste mesmo Pernambuco de hojes, pudesse eu comprar algo interessante para mim.

E sim, naqueles idos queria eu comprar uma carabina de pressão para sair atirando em lagartixas no quintal – não se espante, Clara, eu não sou tão mal assim! Até que, passeando pelas ruas do centro desta cidade que nos agoras me acolhe para estudos em nível de mestrado, pude entrar em uma grande loja de departamentos. Corri para a sessão de carabinas de pressão da marca CBC. Todavia, para se chegar até as prateleiras desejadas, era preciso atravessar uma gôndola inteira repleta de máquinas de escrever das marcas Olivetti e Facit. Você já suspeita o que pode ter ocorrido naquele exato instante? Paixão à primeira vista, Clara! Paixão com amor, os dois e tudo o mais, juntos! Levei feliz para casa uma Olivetti Lettera 25 portátil de cor bege que até hoje tenho e cuido, com a qual ainda datilografo algumas linhas mais especiais. Enfim, sempre temos aqueles lugares que marcam e mexem com a gente. Garanhuns, para mim, é um.

Meu amor pela escrita foi muito incentivado pelos sons daquele teclado plástico movido pela belíssima engrenagem de metal, de som avassalador, tocado pelos dedos em movimentos firmes e calorosos, do mesmo jeito que gostava que assim o fosse nosso querido Jorge Amado. A tecnologia digital, para mim, não tem o encanto das coisas analógicas. Coisa de gente da cabeça antiga, podem alegar. Sou assim e gosto de velharias. Amo a coisa de outros tempos e a alma dessas coisas. Você fala em novos meios, e aqui estamos em carta - claro, em novas congruências midiáticas -, vivendo a mais nossas vidas, numa comunicação composta de fluidos de vanguarda e ares retrô. Vivas às relíquias humanas, aos legados, às resistências! Nossas cartas acabam se tornando nosso momento de respiro, a última pegada eterna de nossos olhos, o desejo pelo contínuo da vida que não se pode viver. Estamos, sim, num café, à deriva. E que jamais cheguemos a lugar algum!

Incrível esta ligação gonzagueada pela voz musical deste que a quem considero um mito brasileiro, o filho de Seu Januário dos Oito Baixos. Luiz Gonzaga lembra o meu pai, a quem amo com devoção em seus bem aproximados 70 anos de idade. Aquela coisa da universalidade da música, do poder de tocar as almas e os corações os mais longínquos possíveis. A música, a música!, grande beleza... conheço muitas pessoas que defendam a música como sendo a mais significante e expressiva das artes, Clara. Defendem bonitamente, com argumentos demasiado interessantes. Eu escuto, faço sim com a cabeça, mas fico meio assim, meio acolá-pra-lá, pensando, pensando se. Mas é mesmo uma coisa linda sem a qual a vida seria bem menos atrativa. A música é, como muitas outras manifestações de arte, movimento de elevação, vento que nos leva para, que nos tira de onde estamos enraízados, presos. Vejo a música como libertação.

E não, não se preocupe, mesmo. Eu não perdi a festa. Elba Ramalho sempre vem por cá dar o ar de sua graça. Sempre tenho a oportunidade de vê-la entoar seus cantos e encantos. Está tudo bem, e mais, escrever-te é também uma festa, das mais queridas por mim. Falar a verdade, Clara, não gosto muito de muvucas, sabe, sou de preferir movimentos menores, com ares de mais novidade para mim, sem falar dos riscos de se ir para uma comemoração dessas proporções aqui em Caruaru-PE. É muita, muita gente mesmo, de todas as partes do Brasil, ladrões saem das tocas, mortes acontecem, vejo nos noticiários... o negócio não está muito tranquilo por aqui em termos de segurança social. E aí, como vai seu lindo Portugal em quesito tão fundamental, Clara?

E essas nossas errâncias mundanas, querida minha, a nos mexer nos nervos da vida? Eu que já parti para tantos futuros que nunca me aconteceram, que já vivi sonhos que nunca se realizaram, que já tombei dentro de penhascos do mundo que me imundaram, que tiraram de mim parte de minhas forças, mas que por incrível que possa parecer não me impediram de sempre me erguer com uma vontade de não ser para sempre um perdedor. A vida foi me guiando em minhas perdições, e sempre, sempre mesmo, logo quando eu menos esperava, luzes me iluminavam os caminhos. Eu, só tinha de ir. Quando você me fala de seu Portugal, eu me animo. É partida. Sou feito delas. Assim como de permanências. Partir é sempre em mim. Quero, digo logo, quero conhecer sua terra, que é também parte da minha terra, e parte importante! Não sei quando nem se com alguém, mas pisar meus pés aí não será de tanto o maior dos esforços. Haverá o dia de me espantar contigo, bote fé. Há passos guardados.

O sono, quando mais jovem, não me servia de nada. Passava 20 das 24 horas dos dias acordado, quase sempre lendo e escrevendo. Não me faziam falta as horas. Hoje, sinto falta dos sonos. Tenho muita dificuldade em dormir, Clara. E quando durmo, é muito levemente. Muitas vezes não dormia por conta de minha mente estar em outros mundos, conectada a fios invisíveis da mãe-literatura que me desautorizavam o desligamento e dificultavam consequentemente meu retorno à Terra. Por isso, entendo perfeitamente os seus estados insones.

Este meu jeito de escrever, Clara, vem de minhas tentativas as mais simplórias de me enveredar por este meu Amor: a Literatura. Aprendo tanto lendo, e nesse aprendizado incluo você e seus textos, que me ensinam. Li tanta coisa, mas li tão pouco ainda. Minhas palavras são somente vontades e esforços. Elas dizem muito de mim, acredite. Fico extremamente feliz por suas observâncias, Clara. Tudo é tão comum em mim que confesso a você não suspeitar de tais detalhes por vezes. Mas não é bem assim que fica interessante? Sigamos, pois, e um salve aos nigerianos, pela conquista. É tanta coisa maligna neste nosso mundo que pequenos alívios assim devem ser comemorados como se fossem míticas vitórias. Torcer agora para que a lei seja cumprida. Torcer.

Termino minhas linhas de hoje, Clara, oferecendo a você uma visão bonita que tive esta semana: ao me direcionar ao caixa de um supermercado num começo de noite lá na Cidade-Jardim, outro nome de Garanhuns, posicionei-me logo atrás de uma senhorazinha ali no auge de seus oitenta e tantos anos de idade, vestes de lã devido ao frio intenso, pequena bolsa de couro em umas das mãos, óculos de lentes grossas, daquelas vovós da gente bem apertáveis em carinho. Ela, pagando suas compras, começou a reclamar não sei do quê com a moça que estava no caixa. Foram longos segundos ali, entre olhares e dedos em riste, gerente da loja se aproximando pelas beiradas e eu lá, de observador indiscreto. O bonito foi o depois, quando ela enfim virou-se e começou a sair do estabelecimento. Como não suportava o peso das sacolas, por gentileza o empacotador se ofereceu em auxílio até onde pudesse ir. Ela, nem aí para nada, parou na última pilastra do grande galpão, olhou para o céu nublado e em chuviscos, tirou do bolso lateral um maço de cigarros e acendeu com gestos bem lentos e singelos, como a dizer ao moço que a aguardava já do lado de fora com as sacolas: “A pressa, meu gentil amigo empacotador, a pressa não é nada diante deste céu denso repleto de mistérios que agora povoa nossas cabeças!”

Jogaremos nossas damas, Clara, como seus amigos.
Palavras são pedras de damas em xadrez de sentidos.

Abraço você daqui.

Num 13 de junho de 2015, num Pernambuco em fogos de artifício.
Caruaru-Brasil.



__________________


Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Comentários