Páscoa - entre o religioso e o profano

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Por Yvana Paraguassu Rangel

A Páscoa já era comemorada antes da época de Jesus Cristo. Tratava-se da comemoração dos judeus por terem sido libertados da escravidão no Egito. Segundo a Bíblia, o próprio Jesus participou de várias celebrações pascoais. Os judeus seguem a tradição descrita no livro do Êxodo. Durante as festividades da Páscoa, um jantar especial de comemoração, reúne toda a família. No Antigo Testamento, o sacrifício do cordeiro era o principal significado da Páscoa, o resto era complemento, como ervas amarga e pães sem fermento para lembrar o sofrimento do povo quando esteve cativo no Egito.

Os símbolos da Páscoa

As luzes, velas e fogueiras são uma marca das celebrações pascais. Em certos países, os católicos apagam todas as luzes de suas igrejas na Sexta-feira da Paixão. Na véspera da Páscoa, fazem um novo fogo para acender o principal círio pascal e o utilizam para reacender todas as velas da igreja. Então acendem suas próprias velas no grande círio pascal e as levam para casa a fim de utilizá-las em ocasiões especiais. O círio é a grande vela acesa na Aleluia, simbolizando a luz dos povos, em Cristo.

Em muitas partes da Europa Central e Setentrional, é costume acender-se fogueiras no cume dos montes. As pessoas reúnem-se em torno delas e cantam hinos pascais.

Ainda temos como símbolos:

O Peixe é um dos símbolos mais antigos dos primeiros cristãos, ao se referirem a Jesus Ressuscitado. Na época das primeiras perseguições, a palavra peixe, escrita em grego, passou a ser lida como: Jesus Cristo Filho de Deus Salvador: ICTYS: Jesus Christus Teós Yiós Soter. Assim, nas casas, nas roupas, nas conversas e nos túmulos, a figura e a palavra peixe passaram a ocupar um lugar de destaque. Na multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus se torna presente (Mt 14,17). A relação com a Páscoa se acha no fato de as aparições de Jesus, após a Ressurreição, estarem sempre ligadas à presença do peixe (Jo 21,9) e (Lc 24,42-43). Foi-se o tempo em que, na Sexta-feira Santa, o programa do dia era fazer silêncio, ir à igreja, não varrer a casa, assistir ao filme “Paixão de Cristo” e orientar a molecada a não fazer “traquinagens” senão o sábado seria doloroso. Hoje, a maioria dos brasileiros não leva a sério o tríduo pascal (sexta, sábado e domingo), festividade mais importante para a religião cristã.

SINOS, VESTES BRANCAS E A ALELUIA.

Os sinos festivos, que repicam na noite da Ressurreição, recordam o momento da subida de Jesus Cristo aos Céus. Nas cidades pequenas, todos os sinos da Igreja repicam de maneira solene e alegre no canto da Aleluia. Soltam-se rojões e o ar se enche de festa e alegria. As vestes brancas e paramentos, que se usam na noite da vigília Pascal, recordam a alegria dos primeiros batizados, que se revestiam de vestes brancas, simbolizando a vitória sobre a morte.

As Igrejas se adornam com toalhas de linho e flores brancas. Essa cor foi adotada pelos primeiros cristãos como símbolo da alegria, da vitória e da pureza de Deus (Mt 17,2) e (Mc 16,5). Cântico da Aleluia é um dos símbolos mais expressivos das aclamações de louvor e de alegria. É uma expressão hebraica: HALLELUI-YAH que significa: Louvai o Senhor (Ap 19,1).

GIRASSOL é um dos símbolos pascais menos conhecidos em algumas regiões. É, porém muito rico em conteúdo. Cristo é a luz, a força, a energia. O cristão sem uma ligação com Jesus não encontra significado para sua vida.

O RAMOS - Podemos dizer que a semana da Páscoa começa com o Domingo de Ramos. A festa dos ramos relembra o dia em que Jesus entrou festivamente em Jerusalém, pouco antes de sua morte. Jesus nascera em Belém, na Judéia, mas passara a maior parte de sua vida na Galiléia, em Nazaré, Cafarnaum e outras cidades, fazendo sua pregação sobre o Reino de Deus e divulgando sua doutrina de amor. Poucos dias antes de ser preso, julgado e condenado à morte, Jesus dirigiu-se a Jerusalém com seus discípulos, justamente para comemorar a Páscoa (a Páscoa judaica). Pois foi nesse dia que o povo o aclamou nas ruas, agitando no ar ramos de palmeira e oliveira, e gritando "Hosana (“que quer dizer” Salve!”) ao Filho de Davi".

Chamamos de entrada triunfal de Jesus em Jerusalém para cumprir seu mistério pascal, a realidade era de maioria camponês, eis a razão dos ramos. Levantar os ramos e aclamar com alegria é a maneira do povo expressar o reconhecimento régio e messiânico de Jesus.

LAVA-PÉS - Durante a Semana Santa, a Quinta-feira é um dia muito importante, no qual se realiza uma celebração bastante significativa. Nesse dia, relembra-se a última ceia de Cristo com seus discípulos, ocasião em que Jesus instituiu a Eucaristia, isto é, o pão e o vinho passaram a simbolizar seu corpo e seu sangue. Mas foi também durante a última ceia que Cristo lavou os pés de seus discípulos. Pondo uma toalha na cintura, Jesus despejou água numa bacia, começou a lavar os pés de cada um dos apóstolos e enxugou-os com a toalha.

Jesus fez isso para dar uma lição de humildade, simplicidade, igualdade, solidariedade, amor e serviço aos irmãos, que nada mais é do que a grande lição pascal.

O lava-pés é, pois, um símbolo, um exemplo. “Dei-lhes o exemplo para que, como eu fiz, assim façam também vocês.

CÍRIO PASCAL. - Círio é uma vela grande e grossa, que se acende todos os anos pela primeira vez, no Sábado da Vigília pascal. O círio pascal representa a luz de Cristo, pois que o próprio Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo!” No círio há duas letras gregas – o alfa e o ômega -, respectivamente a primeira e a última letra do alfabeto grego. O alfa representa o princípio e o ômega, o fim, uma vez que Jesus falou: “Eu sou o princípio e o fim. "Na grande vela há ainda a indicação dos quatro algarismos do ano que está em curso, simbolizando a presença viva de Jesus junto a todos os povos do mundo, com união de fé e de esperança.

A CRUZ - A cruz, instrumento de suplício no qual Jesus morreu, passou a ser um símbolo do cristianismo e também símbolo da Páscoa. Antes símbolo de condenação, depois se tornou símbolo de salvação. A cruz, na Páscoa, relembra que Jesus venceu a morte e, glorioso, passou a viver seu Reino de justiça e de paz.

A cruz não foi um tipo de condenação especial para Jesus. Naquele tempo, a morte na cruz era um castigo comum entre os romanos, que dominavam também a Palestina. Jesus foi crucificado entre os dois ladrões, com a diferença que estes foram amarrados às suas cruzes e Jesus foi pregado.

Morrer na cruz era algo humilhante para os condenados, pois, além de ficarem com os corpos expostos publicamente, apenas os mais hediondos crimes eram punidos com tal pena. Jesus, ao morrer na cruz, deu à humanidade mais uma lição de humildade: sendo Filho de Deus, que tudo pode, ele morreu da forma mais vergonhosa que havia em seu tempo. Costumamos fazer o sinal da cruz, porque acreditamos que é o sinal que nos salva.

O CORDEIRO- Simboliza Cristo, sacrificado em favor do seu rebanho.

A CRUZ- Mistifica todo o significado da Páscoa, na ressurreição e também no sofrimento de Cristo. No Conselho de Nicea em 325 d.C, Constantino decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo. Então não somente um símbolo da Páscoa, mas o símbolo primordial da fé católica.

O PÃO E O VINHO - Simbolizando a vida eterna, o corpo e o sangue de Jesus, oferecido aos seus discípulos.

OVO DE PÁSCOA. - O ovo é um símbolo de vida nova, de vida que está para nascer; é um símbolo de começo. Daí sua associação à Páscoa: a Ressurreição de Jesus também indica o princípio de uma nova vida, a redenção da própria humanidade e a promessa de um futuro cheio de alegria e felicidade para os que têm fé e esperança.

Dentro do ovo gera-se uma vida, a vida é o Dom mais precioso de Deus. Ressuscitando para uma vida nova, Jesus revela a preciosidade que é a vida.

O coelho surgiu com o encontro das antigas tradições egípcias, que acreditavam que o coelho representava renascimento. Com a sua conhecida capacidade de reprodução, alguns povos também acreditavam que representava a fertilidade. E quando os alemães embarcaram para a América, trouxeram com eles a tradição do Coelho da Páscoa, que hoje é representado como conhecemos: trazendo ovos para celebrar a festa do renascimento e fertilidade. O ovo também simboliza o nascimento, a vida que retorna. O costume de presentear as pessoas na época da Páscoa com ovos ornamentados e coloridos começou na antiguidade. Eram verdadeiras obras de arte!

A semana em que os cristãos lembram a morte e a ressurreição de Jesus também significa alto faturamento para o comércio. Para a maioria das crianças sem orientação cristã adequada, a verdadeira estrela da festa não é o filho de Deus e sim a dupla formada pelo coelhinho e o ovo de chocolate. Para os adultos o leque de ofertas é maior. O ovo e coelho fazem parte de uma tradição européia. “Nos sítios, para ajudar a pobreza, pessoas pintavam ovos de galinha, escondiam e, quando as crianças iam procurar, encontravam coelhos correndo. O símbolo da Páscoa é o cordeiro, mas o comércio prefere ovo de chocolate”,

A corrida ao comércio varejista em busca de símbolos da Páscoa e a troca do consumo da carne pela do peixe, na maioria dos casos não se relaciona com o real sentido da Páscoa e o sentido religioso original acaba ficando em segundo plano. Vivemos num mundo secularizado. Religião é opção pessoal, cada um faz a sua escolha. Liberdade de fé e consciência é um valor e exige respeito de todos. Os que não acreditam só reforçam a necessidade do diálogo e da convivência. Não quero impor esta fé a ninguém. Respeito, mas também quero ser respeitada e respeito também. 

Nessa época de Páscoa, observamos campanhas publicitárias utilizando-se de coelhos simpáticos que saltam de ovos de chocolate, conversam com as crianças, divertem-se com os “presentes surpresas” que há dentro dos ovos. E se não fosse tudo, os personagens queridos das crianças emprestam seus super poderes para vender “ovos especiais”.

É quase impossível resistir a tantos recursos fantásticos que o produto promete às crianças. O efeito amargo de tanta doçura fica para a família. Em primeiro lugar, os preços são abusivos, em segundo, a “deliciosa” fantasia se revela assim que se abre o ovo: o brinquedo não tem o tamanho, nem executa as piruetas que são observadas pelas crianças no comercial, e os superpoderes não correspondem ao esperado.

A segmentação do mercado é uma estratégia para aumentar os lucros e atingir um número maior de consumidores. Quando o cliente é a criança, fica mais interessante o lançamento de produtos com personagens que são os preferidos das crianças. A tradição da Páscoa e o faz de conta saudável, que auxilia a criança a compreender o significado do ovo. Acreditamos que discutir valores, estabelecer vínculos de confiança e atitudes sustentáveis são os maiores desafios que as famílias vêm enfrentando na formação dos filhos. O do coelho, da partilha, vai sendo “sutilmente” substituído por outros produtos.

Lembramos que a Páscoa é comemorada por diferentes credos e de várias formas, trazendo, na maioria das vezes, o sentido de renascer para uma vida melhor. Se você é um pai ou uma mãe que fica divido entre fazer as vontades dos filhos e gastar um valor que, talvez, não esteja conveniente para o orçamento, convidamos a refletir sobre alguns pontos.

Seja firme em suas ações e deixe claro seu valor. Ajudar seu filho a se tornar uma criança do bem e para o bem deve ser a prioridade. As boas ações devem ser valorizadas, pois geram uma sensação de satisfação e de felicidade necessária para a construção de valores. Ajude as crianças a pensarem: Como as crianças que não ganham os ovos se sentem? Ou como é a vida de uma criança cujos pais não podem comprar os ovos de chocolate que elas desejam.

Feliz Páscoa! Feliz vida nova!


* Imagem: Autor desconhecido.

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