As loiras do Espaço Camões

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Por Luísa Fresta

Era uma tarde de Fevereiro lisboeta, particularmente fria e ventosa, em que me decidi a entrar num Café da Avenida da República, para fugir às investidas do vento e da chuva, eu que, como sempre, estava mal agasalhada e sem chapéu-de-chuva. Abomino esse objectozinho incómodo que perco ou estrago à razão de três por ano e se transforma numa espécie de perigosa forquilha metálica cada vez que o vento oblíquo bate mais forte, pelo que os Cafés se tornaram nos meus mais sólidos abrigos. A memória é assim mesmo (a minha, pelo menos): deturpa, omite e apaga lembranças reais para dar lugar a outras inventadas cheias de cor e detalhe. Sentei-me a um canto (sempre) esperando atendimento, esfregando as mãos engelhadas e sacudindo a água do cabelo. O meu aspecto era, numa visão optimista, entre o desleixado e o digno de dó. A dois metros da minha mesa estavam duas senhoras loiras impecavelmente vestidas e penteadas, olhando tranquilamente pela janela chuvosa os transeuntes desgrenhados e encharcados até aos ossos. Dir-se-ia até que sorriam, com malícia e complacência. Recordando o episódio do Espaço Camões, ocorrido três dias antes, junto à Clínica da Reboleira, resolvi pregar uma partida a essas esplendorosas «senhoras» e atirei certeiramente com um aviãozinho de papel que tinha acabado de fazer com um guardanapo à nuca de uma delas. (Eu sei, foi infantil, mas por favor, não me julguem antes de ouvirem o resto). Para meu grande espanto a senhora virou-se furiosa para trás, e por sorte nessa altura tinha eu já os olhos mergulhados no meu livro simulando uma absorvente leitura. O assunto findou-se aí, poupando-me a uma humilhação mais do que merecida, enquanto eu tremia nervosamente por dentro. 

Mas a culpa foi das loiras do Espaço Camões, esse magnífico Café Art-Déco nos arredores de Lisboa, onde outras loiras me tinham pregado um valente susto. O espaço é acolhedor, com um enorme candelabro central de tecto, um espelho envelhecido ao longo de uma das paredes laterais, cortinas de veludo avermelhadas e um ambiente intimista e silencioso. Dias antes tinha eu estado nesse Café e deparei-me, logo à entrada, com duas outras loiras com aspecto de modelos, vestidas elegantemente e com penteados que pareciam acabados de sair do cabeleireiro. Eram moças sossegadas e de ar distinto, mas estranhei não terem pedido nada, nem um café, nem uma água, e terem o cabelo tão perfeitamente arranjado num dia onde até as árvores clamavam descabeladas. Quando de repente entrou uma forte rajada de vento pelo Espaço Camões, mal tive tempo para agarrar no meu copo evitando que se partisse, e olhando para a frente, verifiquei com assombro que as duas «moças» jaziam no chão, mantendo as mesmas posições e a mesma classe, não fora o facto de uma delas ter perdido um braço e a peruca loira platinada que se arrastava pelo chão, criando uma imagem fantasmagórica e horripilante. Aprendi então a desconfiar da perfeição e a usar, de tempos a tempos, os meus óculos de miopia encafuados na carteira. Por isso peço publicamente desculpas às senhoras finas da Avenida da República que tão selvaticamente agredi por desatenção e ignorância, embora com uma arma tão inócua como um aviãozinho de papel. Mas a intenção é que conta, e essa, garanto-vos, não era das melhores. A culpa foi das loiras do Espaço Camões!


Texto da série:  Memórias Inventadas (Parte II)


* Imagem: Deviantart.

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