Chapada Velha, testamento de Fellipe Carneiro e a morte

Ruínas da igreja de São João Batista, na antiga vila da Chapada Velha.
Por Romulo Martins


Hábitos e costumes, sentimentos e atitudes de indivíduos perante a morte já foi tema de pesquisa desenvolvida por diversos estudiosos no Brasil e no mundo. As interpretações e a escrita da história sobre esses eventos, como todos os demais temas abordados pela historiografia, são mutáveis. Não caberia aqui uma revisão dessa literatura, nem eu disponho desse fôlego, apenas aponto que essas ideias foram percebidas de maneira diferente por indivíduos que viveram em épocas diferentes e com visões de mundo distintas.

No Brasil Império, era comum a confecção de testamentos por aqueles que possuíam bens a serem legados e que, de alguma forma, sentiam necessidade de deixar devidamente documentado e explicitado desejos a cerca do destino de seus bens, assim como do procedimento de como deveria ser a cerimônia e o cortejo fúnebre. O direito de testar era usufruído por aqueles que fossem donos de si [negava-se esse direito aos escravos], era necessário que os testadores fossem maiores de 14 anos os homens, 12 as mulheres e que estivessem em pleno uso de suas faculdades mentais. Era nos testamentos que muitas vezes se reconhecia filhos bastardos, concubinatos e bens guardados longe do amplo conhecimento familiar.

Clementino de Matos, tio de Horácio de Matos.

O Capitão Felippe Alves Carneiro, natural da “Villa de Chique Chique” e morador da Chapada Velha, faleceu a caminho da Cidade da Bahia [Salvador] em fevereiro de 1873. Três meses antes havia providenciado seu testamento, no qual afirmou ser casado com Rozalina Alves Carneiro, união que não lhes renderam filhos. Seguindo o padrão comum à época, desejou que seu corpo fosse depositado no cemitério “envolvido com hábitos preto” e que o caixão fosse enfeitado. Desejou ainda que houvesse uma missa de corpo presente celebrada pelo pároco local ou por algum substituto. Declarou que seus pais eram falecidos, no entanto não se esqueceu de recomendar e pagar para que fosse solenizada “meia capella de missa por suas almas e meia capella pelas almas do purgatório”. Ainda em relação aos seus desejos religiosos, “deixo a quantia de cento e cinquenta mil reis ao santo São João Batista, padroeiro desse Arraial [Chapada Velha], em beneficio de sua capella.”

O capitão era também senhor de escravos, os quais mereceram atenção nas paginas do testamento. Alforriou condicionalmente “os escravos Laurindo, filho de Marcellina; Eleuterio filho de Maria Nova e Lazaro filho de Maria, minhas escravas; aquelles primeiros, passem, para servir minha mulher por mais dous anos e os outros mais quatro anos depois de meo fallecimento.” Fez ainda uma advertência para sua esposa, que se essa contraísse novas núpcias, antes do tempo estabelecido para as alforrias, estariam todos os escravos “imediatamente forros”. Deixou a quantia de duzentos mil reis para as despesas com o velório. Declarou como herdeira universal de seus bens a sua mulher e como testamenteiro o senhor Clementino Pereira de Mattos [tio de Horácio Mattos, de quem esse recebera o comando da família Mattos após sua morte em 1911].

As últimas vontades do testador, as preocupações com a morte, o desejo de salvação da alma, assim como a pretensão de que suas decisões continuassem a exercer influência sobre mundo dos vivos faz dos testamentos fonte interessantíssima para os estudos das atitudes perante a morte na nossa sociedade.


Fonte do texto – Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) – Comarcas do Interior – Livros de testamentos de Lençóis nº 1 – Folhas 21 - 23.


Dicas de leituras:

REIS, João José. O Cotidiano da Morte no Brasil Oitocentista. IN: Alencastro, L. F. História
da vida Privada no Brasil. v 2. São Paulo: Companhia das Letras. p.95-142. 1997.

______ . A Morte é uma Festa: Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. 3
ed. São Paulo: Companhia das Letras. 1999.

FARIA, Sheila de Castro. A Colônia em Movimento: Fortuna e Família no cotidiano da Colônia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1998.

Comentários

Germano Xavier disse…
Crédito da imagem:

Acervo de Liandro Antirques.
Liandro Antiques disse…
Que belo texto! Quanta informação preciosa consta nessas poucas palavras.
Felipe Brejeiro.
Muito bom!
Parabéns à Gazzeta da Chapada Diamantina!
Germano Xavier disse…
Romulão e seus textos fundamentais.