A “PEDRA DA FELICIDADE”: Aventuras nas serras da Chapada

Seu Douzinho com algumas "pedras da felicidade" na mão.

Por Romulo Martins

Permita-me uma citação, para ilustrar a odisseia, possivelmente semelhante à história de muitos indivíduos na gênese da mineração na Chapada Diamantina:

"(...) certo garimpeiro tentara um dia trabalhar no Paraguaçu. (...) Subiu a serra numa terça-feira, atraído pelos garimpos, que sabia ricos, e não tardou a dar cálculo em uma grupiara. Arregaçou as calças, muito tranquilo, e começou a trabalhar. Foi quando chegou o gerente com uma espingarda nas costas; estava inspecionando a serra e disse:

- Você não pode trabalhar aqui não.
- Por quê?
- Porque não.
- De quem são estas terras?
- Do chefe.
- E as margens do rio?
- Do chefe.
- E o rio?
- Do chefe.

O homem olhou. O Paraguaçu descrevia lá embaixo uma curva ampla.

- O rio também? – indagou.
- Sim. O rio e o leito do rio – respondeu o gerente; e acrescentou: - Você aqui sem ordem dele, nem para beber a água." (Diálogo descrito no romance Cascalho, Herberto Sales)

Em meados do século XIX, em decorrência do baixo preço do açúcar, a província da Bahia atravessava grande crise econômica, que se arrastava desde 1830. Por essa época, a concorrência das Antilhas (América Central) abarrotava o mercado europeu da doce iguaria, e a lei da oferta e procura confeccionava as regras do jogo. Muitos homens que dependiam direta ou indiretamente da indústria açucareira viram-se arruinados. Fenômeno parecido atravessava a Província de Minas Gerais, por ali a mineração do ouro e diamante dava sinais de seu esgotamento. Foi nesse contexto, da busca por novas saídas para crises econômicas, que se iniciou a exploração dos diamantes da Chapada. É difícil precisar uma data para os primeiros achados, mas o ano era 1842 e o local a Vila de Santa Isabel do Paraguaçu (Mucugê).

Além de senhores em dificuldades financeiras, pequenos comerciantes, pobres livres, escravos e também libertos que estavam à margem do sistema na Cidade da Bahia (Salvador), no Recôncavo, e em outras partes da Bahia e de províncias vizinhas, muitos viram na nova atividade econômica uma possibilidade de remediar sua pobreza. A corrida foi eufórica. A “Pedra da Felicidade” iluminava os sonhos daqueles que adentraram as serras e córregos da Chapada. A riqueza fácil sussurrava ao ouvido daqueles homens, sempre extasiados com as possibilidades dos bambúrrios.

O início foi deveras traumático, a ausência das forças de regulação e coação do estado imperial encorajavam crimes e desrespeitos à condição humana e à propriedade. Muitos pagaram tamanha aventura com a vida. Em relatório de 1847, enviado pelo Inspetor dos Terrenos Diamantinos da Bahia, Benedicto Menezes da Silva Acauã, endereçado ao Imperador D. Pedro II, informava: “(...) descobrindo as minas de seus seios, convidou uma população de mais de 30 mil pessoas, (...) a consequência era e tem sido o nenhum respeito à propriedade e às pessoas, e em dois annos serem victimas do punhal e do fuzil mais de cem infelizes, sem que os autores de crimes tão horrorosos receiem a punição d’elles.".

Em busca da “Pedra da Felicidade” - sugiro essa grafia com aspas - muitos sofreram, todos buscavam, todos sonhavam, mas... poucos conquistaram de fato a felicidade naquelas paragens. (continua na próxima semana)

Referências:

ACAUÃ, Benedicto Menezes da Silva. Instituto Histórico Geográfico do Brasil, Revista Nº.9. 1847. 2º ed. 1869; p 227-260, (p. 230).

SALES, Herberto. Cascalho: romance. 6º ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1975. Pag. 18

Fotografia: Germano Xavier - Moldura de propriedade de Maria Neta.

Comentários

Dani Gama disse…
Rômulo, você escreve de uma forma que nós, meros leitores e espectadores da sua história, ficamos ansiosos pelo próximo "encontro". Fico maravilhada...essa riqueza seletiva aqui do blog me dá orgulho de estar aqui ao mesmo tempo em que me reforça a certeza de que esse jornal é de uma riqueza tamanha para nossa região.

Um beijo grande.
Germano Xavier disse…
Muito interessante e informativo, mestre.
Vilma Pires disse…
Sempre tive uma admiração por esse cidadão, Seu Douzinho!!!!